Por ERRICO MALATESTA | Carta de Londres publicada no jornal «Volontá» de Ancona, 22/6/1913. Tradução encontrada no jornal «A Aurora» do Porto, 31/8/1913, e revista por João Black de acordo com o original italiano.
AS SUFRAGISTAS
Londres, 14 Junho [1913]
Venho dos funerais de Emily Davison, «morta pela causa das mulheres», como dizem os estandartes fúnebres — e venho triste e comovido.
A causa das mulheres! Por ela julgava combater a pobre mártir que, deixando as comodidades duma posição privilegiada, sacrificando os estudos e os exercícios prediletos, toda se consagrara à luta pela conquista do voto para as mulheres. Persistira durante anos, sempre plena de audácia e iniciativa, na guerrilha que as sufragistas fazem a fim de chamar a atenção do público para a sua reclamação e forçar o parlamento a dar-lhes satisfações; fora repetidamente aprisionada, fizera a greve da fome, fora submetida à tortura da alimentação forçada, e uma vez feriu-se gravemente numa obstinada tentativa de suicídio, realizada porque pensou que «uma grande tragédia era necessária para salvar da tortura as suas companheiras de prisão»; por fim deixou a vida num audaz ato de propaganda, recomendando, no momento de morrer, às suas companheiras que perserverassem na luta.
E como Emily Davison, pela causa das mulheres crêem cambater todas aquelas heróicas raparigas, todas aquelas mulheres generosas, jovens e velhas, que impertérritas se expõem ao riso dos tolos, aos gracejos e projéteis da canalha dourada encorajada e amparada pela polícia, às perseguições e às torturas infligidas por governantes hipócritas e cobardes, que não ousam deixá-las morrer de fome mas torturam-nas até lhes colocar a vida em perigo e lhes arruinar a saúde para sempre.
Crêem combater pela causa das mulheres porque, segundo elas, a conquista do voto haveria de libertar as escravas da oficina que entisicam por salários de fome, as mães dolorosas que não conseguem alimentar os filhos, as esposas oprimidas que sofrem as violências do macho brutal, as desamparadas que se prostituem, seja dando-se aos transeuntes por um pedaço de pão, seja casando-se sem amor com o homem que as pode manter — e haveria de dar a todas independência económica e dignidade de pessoa livre.
E ao invés abrem o caminho às politicantes que estão à espreita para se aproveitarem dos seus sacrifícios e burlar as eleitoras como «simples homens».
Ó triste tragédia humana! As mulheres entram na história… entram nela pela mesma via tortuosa, cheia de ilusões e de armadilhas, que os homens estão percorrendo.
Nós não podemos estar com elas. A sua reivindicação, à qual nada têm a opor, a não ser a força bruta, os partidos autoritários de todas as espécies, não pode resistir à crítica dos anarquistas.
Elas esperam a emancipação do seu sexo do exercício do direito de voto, quando o mesmo direito foi e é palpavelmente impotente para emancipar o sexo que já o possui.
Protestam que as mulheres não devem obediência às leis feitas pelos homens — e depois querem o direito de fazer, juntamente com os homens, leis que naturalmente deverão ser impostas também aos que não tiverem contribuído para as fazer.
Mas se o que as sufragistas querem, isto é, o direito de contribuir para nomear os legisladores, é coisa certamente inútil e má, já o movimento que elas conduzem é um belo exemplo de vontade e sacrifício, e está a provar como muitas vezes o método tem mais importância prática do que o fim.
Por terem recorrido à ação direta e aos meios ilegais, as sufragistas conseguiram em pouco tempo fazer do voto feminino uma questão palpitante que nenhum governo inglês poderá mais ignorar e que terá de ser resolvida em breve em favor delas: elas conseguiram colocar o governo dum poderoso império na mais ridícula das posições, arrancaram a máscara de hipocrisia aos liberais e aos laboristas parlamentares, escarneceram e espezinharam as leis, mostraram como se pode, ao serviço de uma ideia, violar os direitos de propriedade sem se expor à suspeita de sórdidos motivos. Embora não sendo revolucionárias no sentido integral da palavra, prestam à causa da revolução um assinalado serviço, pois dão aos operários um exemplo de audácia que não se perderá.
Certamente, é doloroso ver tanto entusiasmo, tanta tenacidade, tanta atividade desperdiçada para uma causa tão má como a do direito ao voto, quando se pensa que essas energias fariam dar um passo imenso na causa da emancipação humana se fossem levadas para o meio das trabalhadoras a fim de as animar e apoiar na luta direta contra a exploração e contra a opressão. Mas como censurar esse erro às mulheres, que entram só agora na vida pública, quando no mesmo erro cai ainda a grande maioria dos homens, que há mais de um século experimentam a inanidade do sufrágio, universal ou restrito?
Critiquemos pois a ilusão destas mulheres para procurar induzi-las a travar uma melhor batalha, ou para que, em todo caso, possam recordar-se e emendar-se no dia inevitável das desilusões e das traições.
Mas honremos a sua devoção e a sua coragem, e aprendamos delas a fé, que é feita de vontade segura e esperança ardente, a fé sem a qual não se podem alcançar as grandes vitórias.
Errico Malatesta
(Volontá, 22/6/1913)
