Os Problemas Atuais do Anarquismo e do Sindicalismo

Temas a apresentar a todos os militantes da CGT, organizações aderentes e aos militantes e grupos anarquistas

Autor: Grupo Claridade – FAI-CGT-AIT

Data: 1845

A NOSSA ATITUDE

Passados já dezanove anos de regime fascista, durante o qual a nossa organização confederal tem vivido sob rigorosa clandestinidade, suportando através de mil sacrifícios o labor das sua reivindicações e aspirações, na alma dos trabalhadores não se extinguiu o fruto da experiência sindical nem a floração doutrinaria da nossa propaganda de mais de 50 anos de atividade.

Paralelamente podemos considerar a responsabilidade social da nossa CGT e a importância da sua atividade e dos seus postulados no presente momento, na agonia de uma civilização e no despontar de uma época de experiências sociais que exigem a nossa ação e o nosso pensamento.

É atendendo a esse duplo imperativo que o nosso grupo sentindo a iminência de um renascimento e recrudescimento do movimento social operário, enraizado na nossa CGT, vem perante todos os que partilham das mesmas responsabilidades colocar á discussão previa, com objetivo de realização urgente, os temas presentes.

O nosso Grupo não recua perante as questões mais delicadas e as mais graves, consciente da complexidade dos problemas e da mentalidade desenvolvida através dos acontecimentos nacionais e internacionais dos últimos anos, pondo á discussão objetivamente, e com um sentido realista, todos os problemas que ficaram em suspensão e os que nos surgiram posteriormente. Todos os militantes, todos os grupos confederados e libertários, por certo que empenharão toda a sua boa vontade e consciência das realidades presentes na análise dos temas presentes aqui focados, e espera que sirvam de orientação para o renascimento confederal e das ideias comunistas libertárias.

Princípios de 1945

O Grupo “Claridade”

A Atualidade do Movimento Sindical e a Sua Unificação

A industrialização capitalista definiu a existência de classe que lutam entre si e a diversidade das condições de vida de cada uma delas determinou um irredutível antagonismo de interesses. A organização dos trabalhadores para a sua defesa da exploração capitalista caracterizou-se, a princípio, como sociedades de resistência com o simples objetivo das questões de trabalho, mas o progresso social, da técnica e da economia elevando o conceito social do trabalho, ampliou a utilidade coletiva do trabalhador, rasgando-se-lhe por isso novos horizontes.

Haverá nisto o simples critério marxista da luta de classes, operário contra patrão, classe contra classe? O princípio rígido de Marx não explica o mecanismo da luta social. Há uma luta de classes, mas a diversidade destas e dos seus interesses, a colisão de princípios inerentes ao homem, independentemente da sua função social, complicam a noção de luta social. Por igual erro de analise dos problemas sociológicos, agora generalizou-se o conceito de questão social, não de classe contra classe, mas de democracia contra fascismo, aliás uma simples definição política.

Se o antagonismo económico das classes é um fator de luta, a experiência das instituições sociais, a evolução do conceito de civilização e de justiça, os hábitos de escravidão ou de liberdade, a cultura, a cooperação e o atavismo tradicional, são determinantes dos processos violento ou evolucionista das sociedades humanas.

Através da complexidade destes fatores é que nos podemos compreender a evolução orgânica e doutrinária do movimento operário desde as sociedades mutualistas até ao sindicalismo atual, e as características que toma em cada país.

Entre nós o movimento social cedo se animou de objetivos sociais definidos.

Numa sociedade como a portuguesa, o trabalhador tem de lutar contra a servidão do salariato, mas tem de lutar também contra o Estado medieval que tudo domina, e contra o predomínio clerical e das elites, embora inferiorizado numa sociedade que se limita entre a extrema riqueza dum clã de argentários e a penúria dos que vivem do seu esforço, manual ou intelectual. E o horizonte da luta amplia-se, e nela convergem o assalariado, o pequeno proprietário rural, as classes liberais, etc…

Esta faceta da luta de classes entre nós tem de ser encarada pela CGT, e oportunamente a ela nos referiremos em especial.

Se temos de reaver as conquistas operárias extorquidas pelo fascismo, temos, sobretudo, de empreender uma vasta ação no campo das realizações económicas, morais e sociais.

Nos países em que a guerra obrigou a um esforço de produção excecional, e, portanto, onde o valor dos produtores se evidenciou, para que fosse eficaz foi mister dar-lhes uma posição e situação dignificadas. A administração das indústrias faz-se sob o controle das organizações sindicais, e os conselhos de fábrica, já experimentações na Itália, Rússia, na Espanha e noutros países, normalizaram-se como um novo sistema de gestão económica. É a influencia do sindicalismo ascendendo para a sua função integral.

Estamos perante todos esses problemas, e a nossa atuação tem de definir-se. A CGT tem um pensamento definido e uma organiza estabelecida nos Congressos da Covilhã e Santarém, a Organização Social Sindicalista, resta-nos analisar a sua adaptação prática ás realidades presentes, e se o tempo não nos determina ampliá-la.

Antes de tudo, no interesse da ação social dos trabalhadores, há um problema de unificação sindical.

Reafirmamos o princípio que animou sempre a nossa CGT. Opomos ao critério centralista da unidade o princípio libertário da união.

A unidade é um critério militarista e totalitário, é a sujeição dos indivíduos ou agrupamentos a uma disciplina regulada por qualquer comité que interpreta o interesse comum. A unidade é o fascismo, o bem e o mal dispensado pelos que mandam, a obediência passiva dos dirigidos. Aparentemente pode ser o sistema da força organizada, mas não a voluntariedade e a cooperação para um objetivo tornado de todos pelo interesse de todos. Contra o totalitarismo dominador foi preciso levantarem-se as forças morais do homem livre, a ânsia indomável da liberdade. Contra a unidade fascista levantou-se a união de quantos pensando e organizando-se diversamente com a liberdade dos seus objetivos, se aprestaram para combatê-lo, e a unidade imponente do aparato de força do fascismo foi vencida pela união livre de todos os que não aceitavam a sua gargalheira.

A união dos trabalhadores não implica a sujeição das ideias, dos interesses e das tendências que se manifestam no meio operário. Nós, sindicalista e libertários, devemos colocar o problema da união dos trabalhadores, e procurá-la a todo o custo, para que a interferência operária na reconstrução social seja eficaz.

Existe a nossa CGT como a agrupação nacional do operariado; a união far-se-á dentro dela. É preciso que a fase de reaparecimento dos sindicatos livres da tutela do Estado se complete com um congresso confederal onde participe todos os organismos sindicais.

Essa união deve assentar num princípio fundamental; a autonomia da CGT. Esta autonomia tem de manter-se evitando a sujeição a qualquer organização política, de modo a garantir a cada sindicato e a cada filiado a livre disposição da sua orientação e da sua atuação.

O objetivo confederal expresso nas suas bases, obrigará todos os seus aderentes a um esforço de cooperação.

Qual a orientação ideológica confederal, questão que serviu de motivo, á cisão? Não podemos fixá-la; cada corrente procurará influenciar as atividades sindicais, mas dentro do pacto da união. Aos militantes sindicalistas e libertários compete pela sua ação influir nos destinos da CGT, em continuação dos seus percursores.

Outro problema delicado da união é a questão das internacionais. Parece que a guerra a simplificou, o problema está nos mesmo termos que o problema nacional.

Atualmente deve existir apenas duas internacionais, a AIT e a FSI, visto que a ISV se dissolveu, mas cujas atividades ignoramos de momento. A CGT é aderente á primeira.

A questão da Internacional, cada vez mais importante, deve ser posta de um modo delicado, mas indispensável, e que aliás foi deliberado num dos últimos congressos da AIT: a criação duma única Internacional pelo esforço combinado das existentes, o que equivaleria ao renascimento da 1º Internacional.

Parece que o esforço combinado das atuais Internacionais simplificaria o objetivo, e para isso deveremos permanecer na AIT certos de que o poderíamos conseguir ou pelo menos, uma entente das centrais sindicais de todos os países.

Outro problema fundamental é o nosso órgão “A BATALHA”. Foi sempre o grande elo da organização nacional, o elemento disseminador da propaganda, e o seu enorme prestígio entre as classes operárias, e até nos meios intelectuais, tornaram-no o nervo vital da CGT. Sem a imprensa nenhuma corrente de opinião se faz sentir.

O seu reaparecimento como jornal diário deve estar presente em todas as nossas preocupações imediatas. Parece indispensável assegurar-se já um estudo feito por uma comissão, de modo a garantir o seu reaparecimento logo que as circunstâncias o permitam.

AÇÃO CONFEDERAL

A revolução espanhola trouxe ao movimento sindical revolucionário, e em especial ao de tendências libertarias, uma serie de problemas novos, para os quais não houve uma anterior preparação. Muitos militantes anarquistas e sindicalistas previam algumas circunstâncias especiais, mas os sucessos foram mais alem das previsões.

Esse acontecimento, e as atitudes assumidas pelos nossos camaradas de Espanha suscitaram conflitos de atuação e de pensamento de serias consequências. Esses factos, como é natural, refletiram-se entre nós.

Temos agora de enfrentá-los, mas é necessária muita elevação para os estudarmos, e sobretudo muita calma. As paixões suscitadas não devem dominar-nos. O nosso grupo toma a liberdade e a responsabilidade de colocar os problemas que se nos apresentam com objetividade e tolerância, de modo a unificar os esforços de todos.

O Poder Economico:

Um ligar no Terreiro do Paço não é o poder económico. A classe trabalhadora não tem ações nos Bancos e nos Trusts, não dispõe de potencial económico que não seja o seu poder de trabalho, e este, no sistema capitalista tem um fraco valor se não estiver organizado sindicalmente.

Em Portugal não há um movimento cooperativista e mutualista operário que constitua uma força económica, nem se dispões do controlo sindical das indústrias. Se dispuséssemos destes recursos, com esse poder económico podiam os trabalhadores rivalizar com as sociedades capitalistas, e é esse poder que deve criar-se.

Dentro das formas orgânicas da CGT devemos conseguir o controlo da produção por intermedio dos conselhos de fábrica, e intervir na gestão económica, não como repartições burocráticas do Estado, mas como orgânica própria que substitua as fórmulas totalitárias do Estado.

Separar do domínio do Estado e das plutocracias a gestão planificada da economia e do interesse dos consumidores é diminuir o poder daquelas potencias, e conseguir para as classes trabalhadoras do braço e do cérebro o necessário poder económico.

É neste campo que a CGT deve penetrar decisivamente, servindo-se da experiência dos países estrangeiros.

Uma Ação Renovadora:

Á nossa ação económica basta-nos os quadros sindicais da CGT? A sociedade não se compõe exclusivamente da produção; a administração social é uma função relativa.

Não podemos prosseguir nos entusiasmos infantis do sindicalismo do período da 1º Internacional, supondo que os seus quadros correspondem a todas as exigências sociais. O sindicalismo resulta das relações de produção com os produtores, mas escapa-se-lhe grande parte dos problemas do individuo entidade social, consumidor-produtor. A cooperação dos indivíduos, distintos das suas funções profissionais, para os problemas gerais da vida não se limita á esfera da ação sindical, esta é que tem de articular na ação social dos indivíduos.

Os problemas da educação, da distribuição, do consumo, da assistência publica, do urbanismo, podem relacionar-se com as funções sindicais, mas têm uma projeção maior na vida social dos homens.

A vida humana não se reduz aos fenómenos de produção. O erro de Marx, de fazer depender as condições sociais e a “consciência de classe” dos fenómenos da produção, o que Lenine, alias soube desprezar como fundamental na sua conceção de materialismo histórico, esta provado á evidencia pelos acontecimentos sociais posteriores á sua época. O sindicalismo, na sua fase inicial, concebeu a sociedade estruturada ao jeito do mundo fabril, mas breve teve de reconhecer que a complexidade das relações sociais, os problemas do consumo e da administração social não se modelavam pelos quadros da produção, como pretende o industrialismo das I.W.W. (Industrial Workers of The World) da América.

A organização confederal começou a reconhecer esse facto com as deficiências observadas na experiência das antigas Uniões de Sindicatos locais, que em vez de terem por função a coordenação das atividades dos sindicatos, pretendiam, e com fundada razão, representar a ação dos trabalhadores locais na sua defesa como consumidores. A experiência desta modalidade da sua ação levou a Conferencia dos sindicatos confederados de Lisboa, de 1924, e realizada no Liceu Camões, a estudar a remodelação da estrutura das Uniões locais, ampliando-se sob a forma de Camaras Sindicais do Trabalho, subdividindo-se em Juntas sindicais de freguesia.

P problema da defesa da população operária como consumidor, e a necessidade revolucionária de criar-se um órgão de administração da vida social local, começou a ser visto, e a solução tomou uma forma municipalista, tornando-se as Juntas sindicais uma organização de bairro ou freguesia, agrupando-se os trabalhadores da sua circunscrição, independentemente da sua filiação sindical industrial ou profissional. As juntas também, tinham até por objetivo organizar os trabalhadores dessindicalizados por falta de sindicato próprio.

Mas a experiência posterior das Camaras Sindicais revelou uma contradição organiza: constituídas pelos sindicatos, associações de produtores, destinava-se á defesa dos consumidores, e os problemas de uma e de outra espécie embaraçavam-se.

Não quer isto dizer que de um modo absoluto, os interesses de uns e outros sejam irredutíveis, nem haja uma relação de continuidade entre eles, mas na verdade o que domina a preocupação dos sindicatos são os problemas da produção. Sem dúvida que os operários da construção civil querem casas económicas e boas, que os manipuladores de pão queiram bom pão para o publico, mas os tabaqueiros poderão querer que todos fumem, os enfermeiros que haja doentes crónicos, o pessoal dos elétricos não queira a camionagem, e os correios prefiram a tração animal.

Admitindo que numa situação revolucionária entregamos aos sindicatos, agrupados embora em Camaras Sindicais, a administração local, estariam estes aptos a tratarem só por si da organização do consumo, da educação, do urbanismo, da higiene, do transito, da cultura, das artes e até mesmo da planificação económica?

Dir-se-á que sim, porque cada um destes problemas estão afetos a especialidades profissionais, e cada sindicato tratá-los-ia. Mas isso seria o totalitarismo sindical; de género corporativo. Então a educação, por exemplo, seria um produto fornecido pelo sindicato dos professores, sem a intervenção dos alunos e de seus pais, as casas económicas seriam fornecidas em tipos standardes como as dos Estados fascistas, e o transito, por exemplo, seria determinado pelas conveniências dos motoristas, independente dos interesses dos transeuntes.

Na solução desses problemas os sindicatos têm uma intervenção importante, mas não absoluta.

A administração local carece duma estrutura própria como associação dos consumidores em combinação com o sindicalismo, organização dos produtores. Essa organização é o município, que é afinal a comuna.

Através da história dos povos europeus, e em especial dos povos da civilização mediterrânica, o município foi sempre a comuna popular. Nas cidades da época greco-romana o município era a associação local da população. Com a Idade Média, a cidade evoluindo para a intercidade das monarquias territoriais, o município foi ainda a comuna do povo contra o feudalismo. Finda a Idade Media e decadente a monarquia, quando a Nação começou a tomar a forma atual, o município foi o veículo da Grande Revolução. Só o Estado moderno, totalitário, reduziu o município, seu tradicional inimigo, a uma agência política, como sucede sob o domino salazarista.

Os primeiros republicanos em Portugal foram municipalistas, entusiastas das ideias de A. Herculano, porque a República das suas crenças era a oposição ao autocratismo monárquico, ao princípio “L´État c´est moi” vestido de constitucionalista. Os republicanos de 1910 não tinham ideologia federalista, e eram simples jacobinos, Leram Py y Margall e Spencer, mas pensavam como Maquiavel.

A República preferiu o Terreiro do Paço e o Palácio de S. Bento ao municipalismo de Henrique Nogueira e Sampaio Bruno. Os municípios serviram de trampolim para o assalto aos ministérios.

Ao contrário da ação dos republicanos, preconizamos a intervenção nos municípios para descentralizar o poder do Estado, e substituir o governo centralizador pela administração de sistema federalistas, assegurando-nos dos meios de estruturação de um sistema comunista libertário que substitua o Estado tradicional.

E, se o Estado subsistir ainda por algum tempo através duma fase de declínio, que seja a transição do centralismo estatal para o federalismo libertário, os municípios serão, seguramente, o instrumento dessa evolução.

Mas em que pode consistir essa intervenção nos municípios? Uma intervenção meramente política ou eleitoral? Não! Interviremos para torná-los uma instituição livre e de interesse publico, e coordenadora da vida local. A federação municipalista, até um congresso representativo da soberania popular, completariam uma nova orgânica socialista.

Começaríamos por libertá-los da tutela do Estado, da politiquice eleitoeira e da burocracia, readaptando-os aos nossos objetivos sociais. Articulá-los-íamos com a CGT, formando um conjunto político, económico e social.

Paralelamente ao movimento municipal, o movimento confederal, em ação combinada, um na administração social, outro na gestão económica da produção.

Esta intervenção prática nos municípios, além de ser o trabalho de estruturação duma nova sociedade, seria aquela que nos libertaria efetivamente do erro marxista da conquista do poder político, porque seria a conquista do poder económico e político em conjunto.

Com essa ação poderíamos também interessar as outras correntes socialistas, de modo a assegurar-nos de que elas ajudariam a uma maior ação contra o absurdo do Estado-divindade.

Igualmente precisamos de intervir nos movimentos cooperativo e mutualista, dando-lhe uma nova seiva, mais incremento e ideias mais amplas, como complemento da ação defensiva dos consumidores, e aproveitando-os para a grande função que lhes cabe numa sociedade comunista libertária.

DEFICIENCIA DA “ORGANIZAÇÃO SOCIAL SINDICALISTA”

Já atras concluímos que em Portugal, como país pouco industrializado, de um grande atraso cultural e social, e dum condicionalismo de classes muito heterogéneo, na mesma luta convergem os trabalhadores e proletários, uma grande parte da população que vive no amanho duns escassos bens agrícolas, e as classes liberais bastante proletarizadas. Dizemos que convergem na mesma luta porque são vítimas de um mesmo inimigo, porem sempre se desentenderam por falta de um pensamento que os irmanassem, porque os interesses da política e das sacristias tem estimulado essa separação.

Fora dos grandes meios populacionais, que no país não abunda, e em especial dos meios industrializados, o sindicalismo não é o tipo de organização correspondente a certas classes produtoras devido às suas condições de vida económica.

Num conselho onde os habitantes trabalham nas suas terras, permutando serviços de certa especialização, e a indústria se reduz á condição subalterna da agricultura, que modalidade de organização sindical podemos oferecer-lhes? Não lhes interessa o sindicato porque não lutam contra uma empresa capitalista, antes, precisam de uma organização que vitalize os seus meios de produção e os seus recursos económicos. Contudo, essa gente sofre a exploração e o jugo do Estado e dos intermediários capitalistas, e têm interesses como produtores e consumidores. A solução de sindicato misto não serve.

Afora os conselhos do Alentejo, onde predomina o latifúndio, e, portanto, existe o proletariado rural, a organização sindical nunca se verificou em certos distritos, e isso está explicado, e são grandes populações que trabalham e lutam afastados de nós.

Podemos deixá-las assim desorganizadas, constituindo o peso morto da Revolução e o reduto do clericalismo? No nosso próprio interesse devemos organizá-las, integrando-as numa economia socialista, mas segundo as suas necessidades.

Mas esses trabalhadores, que erradamente se costuma classificar de pequenos proprietários, e aos quais se poderia chamar com mais rigor os grandes escravos da terra, se não tem um patrão que explora o seu trabalho, sofrem a espoliação do Estado, a concorrência esmagadora dos monopólios e dos grandes detentores da terra, a usura dos prestamistas, e ainda com o estado rudimentar das suas condições de vida primitiva. Se ficam á margem da luta libertadora, constituem um obstáculo às condições comunistas, que o conservadorismo e o clericalismo manejam a seu exclusivo favor contra os trabalhadores industriais.

Ainda outra consequência do seu isolamento é que o campo continua a ser como uma entidade isolada da economia, e o comunismo libertário necessita realizar uma síntese da cidade e do campo. Para consegui-lo, necessita de integrar toda a população dos campos e das cidades no mesmo objetivo social e na mesma estruturação económica.

Se os operários das cidades e das indústrias necessitam de conquistar melhores condições de vida ao capitalismo, as populações rurais das regiões de propriedade dividida necessitam de associarem-se para obterem melhor rendimento do seu trabalho e melhorarem as suas condições de existência. Para os primeiro, convém o sindicato, para os segundos, a cooperativa e uma união local, o município. A diferentes condições económicas deve corresponder órgãos apropriados.

Para além da luta económica, como objetivo de uma transformação social, os mesmos tipos de coletividades apresentam iguais condições.

Preconizamos como princípio fundamental da economia O COMUNISMO LIVRE, mas, para essas populações de pequenos proprietários, a magia e o hábito da posse da feira da terra como garantia da sua existência não os deixa conceber de imediato a comunidade da terra.

O comunismo não poder ser imposto por processos ditatoriais, porque só pode existir pela prática do apoio mútuo e duma atividade de cooperação. Para essas populações o comunismo há de começar por uma prática progressiva da cooperação económica, e inicialmente dentro da sua mentalidade.

Não podemos transigir com grande propriedade, porque expropriada presta-se á exploração comunitária da terra pelos que a trabalharam sempre sem o hábito da posse, mas temos de tolerar a pequena propriedade que não queira comunizar-se, por respeito da liberdade, por necessidade de experiência, e até pela pluralidade de exploração agrária que sirva ao estudo e á readaptação económica.

Contudo, não podemos deixar a pequena propriedade entregue ao seu primitivismo económico, aos seus métodos rotineiros de cultura e no seu individualismo egoísta. Para organizá-la sem hostilizar a sua mentalidade e no sentido de melhorar as famílias que persistem nesse sistema e para que contribua para uma economia coletiva sã, necessitamos de ideias concretas que conduzam a força dessa grande parte da população às experiências comunistas.

A cooperativa agrária, agrupando os casais agrícolas que livremente se associem para a posse de crédito, das ferramentas, da permuta de trabalhos e para a realização de trocas ou vendas, é acessível á mentalidade dos nossos camponeses e adaptável á economia comunista.

Não depende exclusivamente da constituição das cooperativas agrárias a organização das populações camponesas. Há o interesse comum para o melhor aproveitamento das condições de vida local, a organização das vias de comunicação, enfim, de resolver os mil problemas coletivos, e isso demonstra a importância dos municípios como a federação local de todos os habitantes.

Parece, portanto, que é preciso organizar essas populações rurais, para quem o sindicalismo será sempre estranho, torná-las uma força revolucionária, e dar-lhe a organização e os meios de reconstrução social.

O município será a organização do meio rural, completado pelas cooperativas e sindicatos que seja possível organizar, como a estrutura que preconizamos para as cidades.

Preconizamos, portanto, a intervenção nos municípios, com o objetivo de torná-los livres e a associação local dos habitantes. Onde não o consigamos, devemos formá-los á parte, como organização nossa e da população.

Para nós, a posse do poder económico e político no sentido comunista é a posse do município, descentralizador do Estado e seu sucessor histórico.

Depois, a federação dos municípios, em distritos e províncias.

Dentro do município, e com autonomia própria, sindicatos, cooperativas, associações livres de todos os fins, constituem toda a organização da vida local.

SINDICALISMO E MUNICIPALISMO

Depois de chegarmos até aqui parece razoável fazer-se uma objeção: até onde vai a função do sindicalismo e a do município? Como se articulam e combinam?

O exposto anteriormente parece ser concludente. Todavia esquematizamos a solução destas objeções:

  1. O sindicalismo atua no campo económico da produção, o município é o órgão da administração social. Entre ambos haverá coordenação de ação.
  2. Paralelamente organizam-se os quadros sindicais e os municipalistas, cada um na sua especialidade, mas em completa colaboração.

O município é a base da organização social, com subdivisão por freguesias e sucessão federalista.

A CGT e uma Confederação Nacional de Municípios seriam os dois ramos da atividade do homem, produtor e consumidor. O Congresso Confederal dos sindicatos seria uma Camara Económica, o Congresso Municipal, a Assembleia Nacional, onde toda a espécie de organismos sindicais, cooperativas, associações voluntárias, etc., constituíam fontes de ação e de soberania das populações.

Precisaremos, portanto, além da nossa CGT, duma Confederação de Municípios, em cooperação através dum Conselho Social, constituindo ambas as partes.

Eis os temas que de momento consideramos fundamentais para a ação combinada dos militantes anarquistas e sindicalistas, e de quantos julguem ser este o caminho do COMUNISMO LIBERTÁRIO.

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