O Delírio Racista

Por CAMILLO BERNERI |

52898869_2511613
Capa da provável primeira edição (versão castelhana por Armando Panizza), ed. IMÁN, Buenos Aires, 1935.

NOTA INTRODUTÓRIA

Esta obra foi escrita em Paris e está datada de novembro de 1934. Toda a informação a que pudemos aceder leva-nos a supor que a sua primeira publicação foi em fevereiro de 1935 em Buenos Aires, pelas edições IMÁN, traduzida para castelhano por Armando Panizza. É dessa versão castelhana traduzimos para português. A versão original de Berneri, seguramente em italiano, não foi publicada e possivelmente perdeu-se (hipótese a confirmar).

20121226-222105
Primeira página fotografada.

A nossa tradução tem por fonte uma edição em brochura de 2010 pela Universidad Autónoma Metropolitana (Cidade do México), que pode ser consultada aqui.

Todas as notas de rodapé marcadas com algarismos são do autor; as restantes são nossas.

VERSÃO PDF DISPONÍVEL: AQUI


SUMÁRIO

O Delírio Racista
Camillo Berneri

  • Introdução
  • O mito ariano
  • O pangermanismo
  • Abracadabra da antropologia hitleriana
  • Existe o homo germanicus?
  • As raças puras
  • O que é a raça hebraica?
  • A raça
  • O tipo antropológico
  • Nação, raça e classe
  • Em pleno delírio
  • O matrimónio racista
  • A esterilização hitleriana
  • Conclusões

O DELÍRIO RACISTA

Camillo Berneri

Introdução

Sir John Simon, ministro inglês das Relações Exteriores, publicou (Times, 4 de agosto de 1934) uma carta em que desmentia uma voz que lhe atribuía origem hebreia, e reivindicava a sua qualidade de ariano puro. Três sábios ingleses (A.C. Haddon, F. Gowland Hopkins e J.B. Haldane), célebres pelas suas investigações no campo etnológico, enviaram ao Times uma carta em que faziam presente que “Desde há tempos os antropólogos reconhecem que, se é pois permitido falar de línguas arianas, é ilegítimo empregar essa palavra para designar uma raça da Europa Ocidental”. A carta concluía: “Não discutimos a conveniência de o secretário de Estado ter corrigido um erro acerca dos seus antepassados. No entanto, julgamos sensível o emprego erróneo dum termo científico, num sentido que tem criado tão grandes preconceitos políticos na Alemanha. Protestamos contra o emprego ilegítimo dessa palavra”.

Que os três etnólogos não se tenham feito intérpretes de teorias discutíveis e se tenham baseado em dados adquiridos agora pela ciência, é uma prova, entre muitas, e que o próprio Max Müller – a quem se deve o uso do termo “povos arianos” – se viu forçado a admitir perante as duras críticas que se lhe opuseram, de que “um etnólogo que fale de raça ariana, sangue ariano, cabelos e olhos arianos, é tão grande pecador quanto o linguista que fale de um dicionário dolicocéfalo ou duma gramática braquicéfala”.

O fascismo, triunfo do irracional, fez seus os mitos mais decaídos da etnologia pré-científica. Um dos teóricos do hitlerismo (admitindo que isso se possa considerar um corpo de doutrinas), Ernest Krieck, no seu livro Educação nacional política (p. 17) proclama a necessidade de submeter a ciência à política nacional-socialista, ou seja, declara a morte da ciência.

A era da razão ‘pura’, da ‘ciência pela ciência’, da ‘ciência desinteressada’, já passou. Toda a ciência que colabora ativamente na missão de conjunto torna-se política e, assim como a política, está imbuída, nos seus princípios como nas suas realizações, de racismo, de nacionalismo e de nacional-socialismo”.

A 11 de maio de 1933, celebrando em Berlim o auto de fé de 20.000 volumes sequestrados,1 Goebbels proclamava: “A hora do intelectualismo já passou”.

Que o hitlerismo assinala um grande eclipse da inteligência e da cultura germânica é de toda a evidência no delírio racista, verdadeira e típica psicose coletiva. Em 25 de março de 1933 Goering, então ministro do Interior do Reich, declarava aos representantes da imprensa estrangeira: “O anti-semitismo pertence evidentemente ao programa oficial do partido nacional-socialista, e a maneira como este educou as secções de assalto explica que hoje todo o homem das secções de assalto vire o olhar ante o professor Einstein com um sentimento de superioridade racial”.

A atitude mais grotesca é a dos doutos (?) hitlerianos. O professor de racismo H. Günther proclama enquanto nacional-socialista: “Só a regeneração do sangue nórdico, ao qual os povos indogermânicos devem a sua grandeza histórica, pode impedir a derrota. Não é possível um renascimento enquanto os nórdicos não voltarem a ser numerosos e fortes. Avante, rumo à nordificação!” – admirável palavra de ordem! Entretanto, “visando a raça nórdica, deve nascer a nova noção do dever”. Mas como etnólogo ele encontra-se embaraçadíssimo, não sabendo como conciliar a palavra de ordem com o facto científico. Vê-se forçado a confessar: “A ciência racista encontra-se na triste obrigação de qualificar de bastardos e de ‘produtos’ mesclados a grande maioria dos habitantes da Europa. É o que faz dela uma ciência penosa, desagradável, e é o que a torna intolerável ao mesmo título que o ditado conhece-te a ti mesmo. Verdadeiramente penosa, desagradável até para os campeões do racismo”.

O fascismo alemão proclama querer “a depuração da raça germânica” e ao mesmo tempo agita o mito da raça pura, afirmando a superioridade da raça ario-germânica.

O mito ariano

Mussolini declarou a Emili Ludwig: “Já não existe raça pura. Coisa cómica, nenhum dos defensores da raça pura germânica foi germano; Gobineau era francês; Chamberlain, inglês; Woltmann, judeu”.

Se o anti-semitismo voltasse a introduzir-se nas necessidades do fascismo italiano, Mussolini, mais do que Maquiavel, teria seguido Gobineau, Chamberlain e Woltmann e falaria, também ele, de raça pura. Hitler, autodidata e carente de sentido crítico, está por outro lado convencido do mito ariano. Ao falar com os representantes das organizações médicas da Alemanha, dizia a 6 de abril de 1933: “As maiores conquistas, no domínio intelectual, jamais foram realizadas por elementos estranhos à raça, mas sim, ao contrário, pelos cérebros arianos e alemães”. Tão néscia opinião é afirmada em várias passagens do seu livro Mein Kampf (478-479; 316; 322) em que protesta veementemente contra a emancipação intelectual dos negros. É, para ele, um atentado à razão e uma loucura criminosa “adestrar um semi-macaco até conseguir acreditar que se fez dele um advogado”. O mito das raças criadoras sugere-lhe estas passagens características:

Tudo quanto admitirmos na terra – ciência e arte, técnica e invenção –, é tudo fecunda produção de somente alguns povos e talvez, na sua origem, duma só raça. Desses povos depende a existência de toda a civilização. Se perecerem, toda a beleza desta terra descerá com eles ao túmulo. Sem a possibilidade de se servir dos homens de raça inferior, os arianos jamais teriam podido dar os seus primeiros passos rumo à civilização ulterior, tal como sem a ajuda de certos animais que o homem conseguiu domesticar não teria sido possível alcançar a técnica que hoje nos permite prescindir pouco a pouco desses animais.

Em outubro de 1933 a Sociedade Alemã de Filosofia celebrava o seu congresso anual em Magdenburgo. O seu presidente, o professor Kruger, terminou o seu discurso com o elogio de Hitler. A assembleia cantou o “Deutschlandüber Alles” e o hino racista “Horst Wessel”. Hitler havia telegrafado ao congresso: “Dirijo a minha saudação à Sociedade Alemã de Filosofia. Que as forças duma filosofia autenticamente alemã possam contribuir para animar e fortificar a conceção alemã do mundo”. Poder-se-ia pensar que se trata desses “filósofos assalariados” a quem Schopenhauer escarnecia justamente. Mas não. A Sociedade Alemã de Filosofia foi fundada em 1917 com a finalidade de opor “uma barreira à invasão da Alemanha por parte das ideias estrangeiras e para cultivar o pensamento em harmonia com a raça”.

O delírio racista não é um produto do hitlerismo; precedeu-o e em grande parte gerou-o. Até Nietzche se aborrecia com os exageros colossais do racismo do seu tempo; assim escrevia: “Quanta má fé, quanta baixeza é preciso para suscitar questões de raça na tão embrulhada Europa de hoje […] Não ter relações com ninguém que tome parte na vergonhosa trapaça que são as questões de raça”.

Em 1854 o conde de Gobineau, no seu novelesco Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas, sustentava a tese de que o primado da civilização concerne aos arianos, de quem teriam descendido os gregos da antiguidade e os germanos modernos. Para Gobineau, tudo quanto é grande é ariano, e a fusão das raças arianas com as demais raças conduz à decadência. Se nos rimos de Goebbels, que publicou a sua genealogia para demonstrar que os seus ascendentes eram todos de sangue ariano puro, deveríamos rir também de Gobineau, que para demonstrar o seu génio ariano publicava a sua própria árvore genealógica, que o fazia descender, naturalmente, dos primeiros vikings escandinavos que invadiram a França.2

As teses defendidas hoje pelos expoentes do hitlerismo são quase todas as defendidas por Gobineau. Para esse romancista a raça é o elemento essencial tanto na história do género humano quanto na de cada sociedade e na de cada indivíduo. Ele fundamenta toda a sua construção arbitrária no axioma de uma raça perfeita, a branca, enviada à conquista do mundo, em estado de graça, desde os planaltos da Ásia. Na hierarquia das raças, a branca é a aristocracia; a amarela é a pequena burguesia, isto é, a mediocridade; a negra é o proletariado. Das três grandes famílias da raça eleita, camitas e semitas corromperam-se ao cruzarem-se com os negros, enquanto que os jaféticos se conservaram relativamente puros, salvo aqueles que na Europa se mesclaram com amarelos vindos da América pelo Estreito de Bering, como os arianos que mais tarde foram os celtas e os eslavos que se tornaram ibéricos ou etruscos. Entre os puros estão os sármatas antepassados dos germanos. Da turvação do sangue eleito, dos muitos e complicados cruzamentos, deriva uma progressiva degeneração da humanidade. Gobineau atribui uma função deletéria ao elemento semítico, turvado com sangue negro, no seio das raças puras. Tais elementos teriam corrompido os gregos, e depois Roma por sua vez corrompe-se helenizando-se e orientalizando-se. Os bárbaros, destruindo Roma, não teriam destruído a civilização ocidental; mas, ao contrário, os germanos, arianos relativamente puros, teriam conseguido regenerar na medida do possível um mundo semitizado. Mas o processo de mescla e, por conseguinte, de contaminação dos elementos brancos originários, não foi contido. “A decomposição do elemento germânico no meio dos demais elementos étnicos é a história dos tempos modernos. O seu sinal mais evidente é o progresso das ideias e instituições democráticas”.

Cada sociedade, segundo Gobineau, consiste em três classes primitivas, cada uma representando uma variedade étnica: a nobreza, derivada dos vencedores, isto é, da raça eleita; a burguesia, do cruzamento da nobreza com elementos inferiores; o povo, constituído por elementos de raças inferiores reduzidos à escravidão.

Uma sociedade é grande e brilhante em proporção com o tempo que conserva no seu seio o nobre grupo que a criou”.

Segundo Gobineau, a democracia anula na sociedade os valores-raça, confundindo nobres, burgueses e escravos. Ele não acreditava que, dadas as mesclas corruptoras, existissem ainda famílias puras. Só acreditava nos “filhos de rei”, que podiam até aparecer na vida cobertos de farrapos, a quem dava o nome árabe de calenders; indivíduos nos quais as qualidades ancestrais reaparecem em todo o seu esplendor. Os calenders reconhecem-se às vezes entre si, e então unem-se para formar “pléyades” de eleitos no meio da sociedade dividida “em três classes; os imbecis, os patifes e os brutos”.3

Quanto ao futuro da humanidade, Gobineau é pessimista. A degeneração por contaminação das raças, nos povos como nas famílias, não irá parar. “A raça branca, considerada em abstrato, desapareceu agora da face da Terra” e a humanidade caminha para a era em que “todos os homens serão semelhantes”; então o género humano cairá em decrepitude e morrerá “degradado”. Gobineau era um nobre francês que, nascido em 1816, cresceu num ambiente feudal em que se odiava a revolução. Assistiu com exasperação às revoluções de 1830, 1848 e 1871. Rejeitava como um todo os ideais dos seus contemporâneos e viveu a desprezar a sociedade, o século e a humanidade inteira. No romance A Abadia de Typhaines está claramente determinada a sua mentalidade feudal.4

O sangue puro é um dogma tão ridículo como o do homem perfeito originário. Conceber a capacidade de variar do género humano como causa de corrupção é indício de estreita unilateralidade e fanático absolutismo.

Os juízos de Gobineau sobre a China são tipicamente superficiais. Fala de filosofia formalista e carente de imaginação, ignorando as audazes metafísicas de Tchoang Tsen, Houai Nan-Tsen e Pao Po-Tsen. Nega fantasia aos poetas chineses, ignorando Kiu Yuen, Song Yu, Tchao Houen, li Sao, Kieou K’o e Tien Wen, mas intui os elementos favoráveis ao comunismo que incubam na cultura e na alma do povo chinês, e esta intuição aguça a sua hostilidade para com a raça amarela.

Gobineau foi um escritor original, mas hoje ninguém o pode considerar um homem de ciência. Foi simplesmente um romancista da etnologia.

O pangermanismo

Quando o conde Gobineau publicou os seus livros, despertou pouco interesse em França. Nem sequer a sua morte, ocorrida em Itália, tive eco na sua pátria. Após a sua morte, a obra gobiniana, divulgada por Schemann, encontrou popularidade exaltada na Alemanha. Richard Wagner e Friedrich Nietzsche foram entusiásticos admiradores dela, e tiveram marcada influência. Foi constituída uma “União Gobineau” e fundou-se em Estrasburgo um museu gobiniano. Toda uma série de antropólogos e sociólogos (Ammon e Stewart Chamberlain na Alemanha; Galton, Pearson e Bateson em Inglaterra; Vacher de Lappuge em França) se consagraram a desenvolver a tese da superioridade ariana. Chamberlain chegou a tentar a demonstração da origem ariana e germana dos maiores nomes da Europa. Woltmann chegou a ver em todos os grandes homens do passado arianos louros. Com que ligeireza, demonstra-o o seu livro Os alemães na Itália, em que se lêem afirmações como a seguinte: “Todos os grandes homens de Itália, os da Idade Média como os do Renascimento e dos tempos modernos, têm nomes alemães: Dante Alighieri (Aigler); Boccaccio (Buchatz); Vinci (Winke); Rafael Sanzio (Sandt); Miguel Ângelo Bounarotti (Bonhrodt); Garibaldi (Kerbolt)”. Basta observar que Leonardo da Vinci se chamou assim porque é originário de Vinci (aldeia do Appenino toscano), para ver com que seriedade construía Woltmann as suas teses.

Não há que estranhar, pois, se nas escolas da Alemanha hitleriana se ensina que Jesus Cristo nasceu de mãe de olhos azuis e cabelos louros e dum soldado germano alistado no exército romano.

O ministro prussiano da Instrução Pública e Propaganda declarou na sua mensagem às massas protestantes (18 de julho de 1933) que a aparição de Jesus Cristo representava: “um retorno da influência do Norte”. Não é estranho que um diário hitleriano (Voelkischer Beobachter, 14 de março de 1933) declare: “A Marselhesa é um antigo coral alemão, cuja música se deve a um compositor wurtenburguês”, quando um professor – um certo Zinner – publica uma História da astronomia (de 674 páginas) em que a obra dos astrónomos franceses, ingleses, americanos, italianos, está resumida com o título Die Sternkunde der Germanen (A astronomia alemã). E há algo pior. O arquiteto Hermann Wille, numa reunião da Sociedade para o Estudo da Pré-História Germânica, sustentou a tese de que os monumentos de pedra que se conservam até hoje dos túmulos pré-históricos, não são na realidade senão as formas mais antigas dos templos germânicos. O templo de Delos revelaria a influência germânica e alguns templos germanos remontariam à Idade do Bronze.

O ministro da Instrução Pública da Prússia não se contenta com a Idade do Bronze e remonta à época glacial, escrevendo numa circular:

Pela época glacial na Europa Central deveriam começar os manuais de história que se encontram nas mãos dos pequenos prussianos, pois a pré-história é uma ciência eminentemente nacional e combaterá os preconceitos que comummente se têm sobre o nível inferior da cultura dos germanos, nossos antepassados.

O homem de Neanderthal, de Aurignac, de Cromagnon, deverá servir de exemplo para demonstrar que infinitas raças tiveram civilizações originais.

Em breves traços os mestres deverão mostrar como a raça nórdica e a raça faliana (palavra nova dos racistas alemães para designar a raça dalecarliana de certos etnólogos) se espalharam pelo Norte e o Centro da Europa.

Os hindus, os medas, os persas e os hititas são originalmente nórdicos. Igualmente, deve-se fazer partir a história grega do Centro da Europa; com efeito, os conquistadores helenos eram nórdicos, e foram eles que formaram a casta dos amos no país.

E o ministro concluía:

A democracia (sic) provocou a mescla das raças. O despovoamento foi a ruína da raça nórdica na Grécia. Do mesmo modo, na Itália a luta de patrícios e plebeus foi uma luta de raças; a grande maioria da população da Itália era composta de descendentes dos eslavos orientais.

A migração dos povos germânicos (invasões bárbaras) infundiu sangue germânico fresco (sic) na mixórdia de raças do baixo império degenerado. Daí desprendeu-se a nova floração de cultura da Idade Média, pois esta não se desenvolveu a não ser nos países onde as tribos germânicas se estabeleceram definitivamente: na Itália do Norte (não a do Sul), em Espanha, França e Inglaterra.

Como se vê por esta circular, a cultura hitleriana conforma-se às fantasias de Gobineau.

Abracadabra da antropologia hitleriana

O ideal étnico é, segundo Gobineau, o dolicocéfalo louro. Este ideal não é senão uma das muitas manifestações do romantismo antropológico. Todos os antropólogos estão agora concordes em sustentar que as medidas craneológicas não são índice da capacidade mental ou do valor moral dos povos ou dos indivíduos. A dolicocefalia, tão exaltada pelos pangermanistas, é frequente entre os esquimós e os hotentotes, povos muito primitivos e mongolóides, e muitos pensadores geneais (Laplace, Kant, Voltaire, etc.) eram braquicéfalos. Nitidamente braquicéfalos foram figuras representativas da Alemanha: Lutero, Beethoven, Bismarck, etc.

Todas as publicações oficiais alemãs de vulgarização etnológica estão absolutamente desprovidas de valor científico. Respondem unicamente a um intento demagógico e educativo (em sentido nacionalista) tipicamente expresso nesta passagem do Morgenpost, de Berlim: “Assim como Goethe descende dos imperadores e reis alemães, também as veias de vários modestos artesãos ou camponeses devem conter sangue de príncipe. As investigações terão por fim que persuadir as crianças, netos e bisnetos que, descendentes de antepassados ilustres, deverão mostrar-se dignos deles com uma existência gloriosa”.

O mito ariano entra perfeitamente no quadro da mística nacional-socialista. Por um lado, exalta o sentido nacional, por outro, bajula o povo conferindo-lhe uma espécie de nobreza congénita. O hitlerismo procede a uma coletivização do sangue azul; daí a razão principal da popularidade que está a adquirir esta colossal trapaça. Certamente, há verdade neste quadrozinho dum gabinete de investigações genealógicas traçado por Voelkischer Beobachter, de Munique, em agosto de 1934:

A “mulher dos ancestrais” de Munique não é de maneira nenhuma – como seríamos tentados a crer – uma velha pedante, mas sim uma linda e jovem mulher, encarregada de buscar os ascendentes de quem, por razões diversas, tem necessidade de possuir dados exatos sobre os seus antepassados.

As oficinas de investigações genealógicas são requeridas cada vez mais pelos habitantes, os quais experimentam uma alegria infantil em conhecer os nomes, profissões e outros detalhes sobre antepassados com que até agora não se importavam em absoluto em dizer verdade. É um mérito do governo nacional-socialista ter, pelo parágrafo ariano, despertado nos nossos compatriotas esse sentimento novo e retrospetivo da família, e muitas vezes é possível assistir a cenas verdadeiramente emocionantes nessas oficinas, como, por exemplo, a que me foi dado participar recentemente:

Encontrava-me no escritório da “mulher de ancestrais” da oficina de investigações genealógicas de Munique. Depois de várias pessoas que tinham ido para se informarem, fez-se entrar um jovem que ia casar-se e tinha necessidade de estabelecer a lista dos seus ascendentes. Uma quinzena antes tinha feito o seu pedido e agora a “mulher dos ancestrais” pôs-se a ler a lista dos seus avós. Após cada nome, apelido, datas de nascimento e de óbito, etc., voltava incessantemente a menção “ariano”. Observei o jovem e vi que a sua cara, até então pálida e inquieta, se tornava cada vez mais radiante. Ele murmurava: “Minha avó, ariana; meu avô, ariano; meu bisavô, ariano…”

Bruscamente avançou para a jovem que lhe devolvia os seus antepassados e, num impulso de alegria delirante, gritou: “Obrigado, obrigado! Oh, que alegria saber-me com tantos antepassados de sangue puro!”

Quando saiu, a “mulher dos ancestrais” disse-me simplesmente, com uma lágrima nos olhos: “Estas são as minhas melhores recompensas!”

Um alemão cem por cento olhar-se-á ao espelho logo que tenha lido nas publicações oficiais estes princípios da ciência hitleriana: “Nos não-nórdicos, as raízes dos dentes estão mais inclinadas, como nos animais, o que corresponde à protuberância animal do maxilar superior”. E sentir-se-á tentado a fazer uso do lápis da sua mulher, refletindo sobre este outro princípio: “Assim como a cor vermelha tem um efeito excitante, a boca vermelho-clara do homem nórdico atrai, enquanto reclama o bejo, tocante aos jogos do amor.”

Comendo, vigiará o trabalho das mandíbulas, porá a boca como um coração ou tratará de fazê-la gume de faca, já que doutro modo passará por dinárico ou oriental báltico, se não por hebreu. Com efeito, as publicações oficiais advertem:

A mastigação do nórdico, que tende a esmagar e triturar o alimento, faz-se com a boca cerrada. Contrariamente, nos não-nórdicos a mastigação vertical tende, como nos animais, a ser ruidosa.

Nos não-nórdicos a boca larga, de lábios avultados, é sinal de concupiscência. Absorve ruidosa e gulosamente, ávida de sensações. É vista a gesticular hipocritamente, feliz de poder ser importuna.

E já não terá medo de enrubescer, antes quererá tornar-se vermelho como um pimento ou pelo menos como uma púdica criança, já que: “O pudor verdadeiramente caracterizado não existe a não ser nos nórdicos, que ademais nomeiam de ‘pudor’ as partes sexuais. Por outro lado, o homem de pele escura não pode enrubescer pudicamente a não ser muito dificilmente”.

Se os seus dentes são bem verticais, se a sua boca é colorada, etc., estará bem satisfeito, pois pensará ser um homem perfeito e não um meio macaco. A antropologia hitleriana ensina: “O não-nórdico é intermediário entro o homem nórdico e os animais, desde logo os macacos antropomorfos. Por isso não é um homem perfeito, nem é de nenhum modo homem por oposição ao animal; é só uma transição, uma etapa intermédia. A denominação ‘sem homem’ é muito mais justa e especialmente indicada”.

O quadro das raças5 deve ser considerado em distintas famílias alemães. E deve ser diligentemente estudado o ABC do nacional-socialismo do doutor Rosten, que faz a seguinte exposição das diversas raças europeias:

Há cinco raças principais na Europa:

A raça dirigente é a raça nórdica. As suas características são as seguintes: O homem nórdico é grande, delgado, tem as pernas largas. A raça nórdica distingue-se pela cabeça alargada, a cara estreita, o pescoço largo, o nariz estreito, os lábios delgados e o queixo acentuado. A pele é clara e rosada, o sangue está à flor da pele; os cabelos são lisos na infância, mas às vezes encrespam-se. A sua cor vai do louro claro ao louro dourado ou escuro avermelhado. A cor da íris varia entre o azul e o cinzento. O homem nórdico distingue-se pela sua audácia, a sua coragem, a sua sinceridade, a sua magnanimidade e o seu amor à ordem. Está predestinado a ser chefe.

A raça ocidental: o homem ocidental é de altura pequena, o nariz mais curto e menos pontiagudo, o queixo menos acentuado, o perfil mais suave e a pele um pouco mais morena. A dos cabelos varia entre o castanho e o negro; a íris entre o pardo e o negro. A raça ocidental não tem senão poucos representantes na Alemanha. O homem ocidental distingue-se pela sua paixão fácil de desencadear, a sua curiosidade, a sua astúcia; opera sempre por cálculo e é afetado no falar. Faz-se notar pelo seu orgulho, a sua falta de princípios, a ausência do sentido da ordem e a tendência à crueldade.

A raça dinárica: o homem dinárico é de altura mediana. A cabeça e a cara são redondos, o corte transversal da cabeça corresponde a um oval. A testa é larga, o nariz largo e curvado do tipo aquilino, o queixo acentuado e pontiagudo, as orelhas são quase sempre grandes e carnudas; os cabelos encaracolados castanhos ou negros, a pele morena, a íris quase negra. Pelo seu estado de alma a raça dinárica tem bastante semelhança com a raça nórdica. As suas qualidades dominantes são a força, a retidão, a audácia, a honestidade, o amor à pátria, a confiança em si. Esta raça tem proporcionado muitos grandes homens.

A raça oriental: é de altura pequena, 1.63 m, as pernas são curtas; as mãos e os quadris carnudas, como se estivessem acolchoadas; a cabeça é redonda e encontra-se sobre um pescoço muito curto; a cara, obtusa; o queixo é largo e redondo; os olhos, um pouco apertados. O homem oriental dá sempre a impressão de ser sujo e descuidado. A sua pele é amarela e morta, os seus cabelos são densos e emaranhados. Assim como o seu exterior está longe da beleza do homem nórdico, as suas qualidades morais estão longe do bem-estar e da ordem daquele. O homem oriental tem espírito estreito sem voos de fantasia, é incapaz de grandes pensamentos. Não gosta do perigo; tanto pode ser monárquico como republicano; o principal é, para ele, a segurança do seu porta-moedas. O oriental distingue-se pelo seu menosprezo e o seu ódio à raça nórdica. Os matrimónios mistos entre nórdicos e orientais são sempre desditosos. Pese a discórdia eterna, o matrimónio em que homem e mulher são orientais é algumas vezes suportável. Na Alemanha a raça oriental está numerosamente representada na Alta Silesia, na Saxónia e no sudeste do país. E como nesses homens não está desenvolvido o amor à terra, facilmente a deixam; entre eles recrutam-se os trabalhadores industriais.

A raça oriental-báltica: na Alemanha oriental encontra-se frequentemente uma raça que, pela cor dos seus cabelos, a forma da sua cabeça e pelos olhos, se poderia tomar pela raça nórdica. Na realidade, nada tem de comum com ela. O homem oriental-báltico caracteriza-se pelo seu esqueleto robusto e a largura dos seus ombros; a sua cabeça é larga, ossuda, com acentuação da parte inferior; o perfil é obtuso; o nariz, curto e arrebitado. Dão impressão de estar mutilados por causa das largas fossas nasais que fazem o seu rosto mais obtuso ainda. Os cabelos são claros, e vão do louro cinza ao dourado; a pele é cinzenta e os olhos cor de água. As características da alma báltico-oriental foram dadas pelo doutor Dieter Gerhardt da maneira seguinte: não é esperta, é néscia, mas precisa duma direção forte e severa. Por trás dum exterior calmo oculta-se um espírito eternamente descontente, uma alta opinião de si próprio e uma débil vontade. Estas características, com a tendência à crueldade e à brutalidade, fazem dos homens báltico-orientais defensores ardentes do bolchevismo.

O professor Günther escreve:

o elemento báltico-oriental no seio do povo alemão é muitas vezes origem de projetos estúpidos, de ideias confusas em todos os domínios da vida. Está fora de dúvida que este elemento vicia o sangue da raça germânica. O homem oriental-báltico é imoral; faltam-lhe todos os impulsos de ordem moral.

O instinto sexual apresenta-se nele em formas repugnantes: a preversão e a comunidade das mulheres. O bolchevismo tenta introduzir essas formas no mundo inteiro.

A raça oriental volta-se igualmente para o comunismo, o que se expressa em numerosos crimes contra a propriedade que caracterizam esta raça. Assim é como os checos são conhecidos como ladrões no mundo inteiro. Na própria Alemanha oriental, onde o elemento báltico-oriental está bastante apreciavelmente representado, rouba-se muito. Esta raça está formada sobretudo de povos eslavos; não constitui uma raça homogénea propriamente dita, mas uma mescla de diferentes raças inferiores

Existe o homo germanicus?

A mesma literatura de propaganda racista admite, como vimos, a heterogeneidade étnica da população alemã. Um diário hitleriano (Koralle, 31 de agosto de 1933) dizia: “O conceito da raça é da maior importância para o nosso povo. Os agentes da nossa cultura devem ser recrutados entre indivíduos de uma mescla racial determinada”. A raça dirigente deveria, pois, ser a nórdica ou quando muito a ocidental. Ora, enquanto o homo germanicus deve ser louro, delgado, alto e viril, Hitler é moreno, Goering é obeso, Goebbels baixo e Roehm um invertido constitucional. As características antropológicas que prevalecem nos expoentes do hitlerismo são dináricas, orientais, báltico-orientais, mas nunca nórdicas. Não se trata de um caso. O homo germanicus não prevalece na Alemanha. Um inquérito verificado nas escolas alemãs deu os seguintes resultados:

31.8% louros puros, de olhos azuis ou cinzentos,

24.2% morenos, de cabelos e olhos escuros,

51.1% tipos mistos.

Na mais pura raça frisona conta-se com 18% de dolicocéfalos, 38% de medos e 49% de braquicéfalos.

O tipo nórdico encontra-se espalhado em toda a Europa e não constitui na Alemanha uma base possível para a purificação da raça.

O abade Boleslaw Rosinski, professor da Universidade da Lviv, dizia num artigo sobre o problema das raças desde o ponto de vista antropológico (Gazeta Polska, Varsovia, agosto de 1933):

O tipo nórdico aparece tanto entre os ingleses como entre os escandinavos e os noruegueses. Está igualmente representado na Polónia e na Alemanha. Todas as nacionalidades que habitam na Europa Central são do tipo ora armenóide, ora laponóide, ou bem dos diversos tipos secundários. A esta categoria de países pertencem a França central, a Suiça, a Alemanha do sul, a Pequena Polónia, etc.

Cada nação está sujeita, no curso dos séculos, à evolução antropológica. As relações proporcionais entre os diversos elementos podem achar-se modificadas – por exemplo – no seio do povo. Esta evolução é obra dos fatores hereditários e da seleção natural. Dado que os elementos laponóide e armenóide prevalecem sobre o elemento nórdico no cruzamento, onde esses tipos antropológicos se encontram, o elemento nórdico tende a ser suplantado pelos demais. Os alemães das regiões centrais são, entre outros, os que sofrem esta evolução. Por conseguinte, se um povo qualquer se propusesse cultivar, no marco das suas fronteiras, um só tipo antropológico a fim de identificar a raça com a nação, deveria começar por se desfazer de todos os indivíduos pertencentes aos tipos antropológicos diferentes, a despeito dos sentimentos patrióticos que pudessem animá-los e de uma genealogia que os faz pertencerem à pátria desde muitas gerações. Todos os demais procedimentos jamais chegam a purificar a raça no sentido antropológico da palavra. Na Alemanha, semelhante medida levará ademais à desqualificação da maioria da população. O próprio fundador do movimento racial não passaria pela peneira.

As raças puras

Não é só o homo germanicus puro que é uma personagem mítica; também o é o homo europeaus. Deniker (Les races e les peuples de la terre, Paris, 1900), querendo fazer um mapa que representasse a repartição aproximada das raças da Europa, teve que deixar em branco quase toda a Rússia, a península balcânica, a Alemanha setentrional, etc.

A raça anglo-saxónica teria como viveiro a Grã-Bretanha, onde as mesclas étnicas são enormes, e os Estados Unidos da América do Norte, que são um mosaico étnico. Dentro da denominação de raça eslava estão compreendidos os povos mais diversos: as numerosas e várias populações da Rússia, os polacos, os eslovenos, os croatas, os rutenos.

Os racistas húngaros sustentam a existência e a pureza da raça magiar, apesar de que os magiares, instalados na Hungria no século IX, se mesclaram com os dácios, os basternasa, os getas, os ilírios, os penonios, os sármatas, os yasigas, os vândalos, os búlgaros, os alanos, os havarés, os hunos, os suecos, os quados, os marcomanos, os gépidas, os longobardos e os godos. E todos estes povos estavam bem longe de ser raças puras.

A mescla das raças fez desaparecer a raça ariana até na Índia. Creio interessante reproduzir aqui uma passagem dum artígo do escritor hindu Acharya, sobre questões de raças (L’en dehors, Paris-Orleans, meados de setembro de 1933):

Até na Índia, onde a pureza do sangue constituía a base da casta, de maneira que ninguém podia comer e casar-se fora da casta e, especialmente entre os brâmanes, se ensina às crianças desde há milhares de anos a recordar o nome dos compositores dos Vedas, cujo sangue corre nas suas veias, não é possível que o sangue seja puramente ariano, de maneira que não há certeza de pureza de raça.

Naturalmente, ensina-se os brâmanes a acreditar e a proclamar que são arianos puros porque descendem dos escritos védicos e, por conseguinte, possuem algumas gotas de sangue ariano. Pese a rigidez de regras das castas até no que concerne à nutrição, cujas regras se observam até estes últimos tempos, cada população e cada família apresenta uma variedade de tipos que vai do mongol ao semita e do mestiço ao negróide. Se é difícil, pois, que as raças se conservem puras na Índia, onde o casamento fora da casta tem sido estritamente impedido, que será dos germanos “puros”, os latinos “puros”, os eslavos “puros” da Europa, onde o casamento é desde há tempo um assunto privado, individual, e a castidade sexual feminina não pôde ser aplicada rigorosamente? Na própria Índia não pôde ser observada. Quantas crianças são fruto dum adultério no matrimónio?

Provindo eu mesmo duma das castas bramânicas mais ortodoxas – até ao meu desembarque na Europa – talvez pudesse proclamar que sou o ariano mais puro que vive atualmente. Ninguém da nossa casta podia comer ou contrair matrimónio nem mesmo com outros brâmanes em toda a Índia. Outros Brâmanes podiam comer connosco, mas nenhum de nós em casa deles. O casamento fora do nosso meio era, pois, impossível, tanto para os varões como para as mulheres. Se alguém se casava fora da nossa casta especial, ele ou ela ficavam automaticamente excluídos como se tivessem saído voluntariamente da casta. Não havia nenhuma esperança de voltar a ela nem de ser reintegrado mais tarde, sobretudo para uma menina ou mulher casada com um membro da casta.

Mesmo no norte da Índia, onde o sangue ariano se encontra mais espalhado, é impossível encontrar um ariano puro, pois os imigrantes ou invasores arianos mesclaram-se com a população indiana primitiva. Os hindus do norte nunca foram tão estritos como os do sul no que concerne à nutrição e ao casamento noutra casta. Apesar do facto de que a minha casta conservava o seu sangue bramânico, que percentagem de sangue ariano corre realmente pelas minhas veias?

É certo que, duma maneira ou de outra, o primeiro antepassado da minha casta casou-se entre os aborígenes da Índia do sul (quando não devia fazê-lo a não ser entre os seus sacerdotes), e no entanto chamou de “arianos” aos seus filhos porque tinham sangue ariano enquanto outros careciam dele. Mas isso não faz dum brâmane um ariano puro, qualquer que seja a quantidade de sangue ariano que possa conservar. Houve alguma vez uma lei imposta aos europeus para que o sangue mesclado deixe de o ser ainda mais? De maneira nenhuma. No entanto, falam da pureza do sangue latino, do sangue germano, do sangue eslavo, porque imaginam que o deve ser e que é. Não pode ser senão menos puro na Europa do que nas Índias, porque nenhuma lei foi aplicada sobre o casamento para conservar pura a progenitura.

Na Europa são precisamente as grandes personalidades que fogem ao atributo de “pureza” étnica. Na aristocracia e na burguesia de todos os tempos, as mesclas foram sempre frequentes e estas classes são as que deram o maior número de pensadores e artistas considerados como expoentes típicos da “alma nacional”. Não me é possível estender-me sobre o tema, que exigiria um tratamento vastíssimo, mas creio útil citar alguns exemplos já que, mesmo entre nós, alheios às enfatuações racistas, é frequente o uso de expressões como “espírito latino”, “alma eslava”, etc., para caracterizar certos aspetos da cultura de um ou outro povo.

O imperador Justiniano, considerado o sistematizador do direito romano e erigido como símbolo máximo da grandeza de Roma, era filho duma aldeã eslava. Montaigne, sobre cujo “espírio francês” muitos escreveram, era filho duma hebreia. A alma eslava com que os críticos explicam quase todos os aspetos da literatura russa é um mito se entendida como um conjunto de atitudes ligadas às características étnicas. O avô materno de Pushkin, o grande poeta russo, era filho dum abissínio e duma alemã, e entre os seus anscendentes paternos havia um prussiano que casou com uma italiana. O poeta russo Vassili Jukovsky era filho duma turca, e de descendência tártara era o poeta russo Ogariov. O poeta russo Delwig pertencia a uma família alemã e o poeta russo príncipe de Kantemir era filho duma grega. O poeta russo Feteb descendia duma alemã. Mikhail Lermontov era de origem escocesa e Herzen era filho duma alemã.

Muitos escritores atuais apresentam um cruzamento étnico na sua ascendência, que faz recordar o do escritor socialista francês Paul Lafargue, cuja avó paterna era uma mulata da ilha de São Domingos, enquanto o avô materno era hebreu e a avó materna era uma índia caribe, isto é, uma sobrevivente da população aborígene das Antilhas.

O que é a raça hebraica?

A superstição da raça, compreendida como unidade étnica homogénea, enquanto impulsionou o estúpido orgulho ariano, conduziu ao mesmo tempo ao anti-semitismo racista, cuja primeira expressão sistemática é apresentada no livro de Dhüring A questão hebreia, considerada como o efeito da característica de raça. Depois deste livro, refutado por Marx, muitos outros autores sustentaram que os hebreus são uma raça e que esta raça é inferior.

A grande variedade antropológica dos hebreus é a melhor prova da inexistência da raça hebraica.6 Os hebreus da África setentrional, da Itália, da península ibérica e do Midi francês são dolicocéfalos (Pruner-Bey, Lombroso, etc.), enquanto os polacos, russos e alemães são braquicéfalos (Kopernicki, Mayer, etc.). Há hebreus negros como os daggatum (tribo vivente dos confins do Saara), os falashas da Abissínia7 e os hebreus negros das Índias. Há-os de tipo louro (na Boémia e na Alemanha), do tipo australiano, mongolóide (na China e no Cáucaso). Há, igualmente, hebreus de alta estatura (Rússia meridional) e de baixa estatura (Galíciac e Polónia).

Foram efetuadas numerosas investigações sobre a grande diversidade étnica dos hebreus, algumas delas de grande valor científico, e não é necessário citar textos. Limitar-nos-emos a algumas observações. O maior número de hebreus reside na Rússia e na Polónia, e visto que nos primeiros séculos do cristianismo muitos eslavos se converteram ao judaísmo sob a influência dos refugiados, é legítimo pensar que os hebreus atuais da Bessarábia, da Ucrânia e da Polónia são na sua maioria eslavos e tártaros. Recorde-se a propósito disto que um povo inteiro, originário da Sarmácia e estabelecido entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, os khazares, convertera-se quase inteiramente ao judaísmo por volta de 763.8 Os khazares foram submetidos aos hunos no século IV depois de Cristo, e depois aos ávaros e aos turcos. No século VII infligiram uma derrota à Pérsia e aliaram-se ao Império Bizantino. Na primeira metade do século VIII tiveram a sua capital, Semender, ocupada pelos árabes e adiantaram-se para a Mesopotâmia. Estas sucessões induzem a pensar que houve uma mescla mongólica (semita) grega (mediterrânica). Segundo outros autores, os hebreus asquenazes seriam verosivilmente de puro sangue israelita.

Os antigos hebreus não apresentam nenhuma unidade étnica, e toda a história hebreia é uma contínua sucessão de mesclas. No tempo de Herodes o povo hebreu era uma mescla de idumeus, egípcios, fenícios, sírios e gregos. Havia uma cidade chamada Citópolis, denominação grega que recorda os citas que haviam invadido a Palestina sob o reinado de Josias (639-608 a.C.). Pela, Gadara, Hippos, Gamala, Gérasa (a leste do Jordão) eram cidades greco-romanas. Flávio Josefo (De Bello Iudaico, livro VII, cap. III, parágrafo 3) diz que muitos gregos passaram para o judaísmo em Antioquia.

Élisée Reclus diz em O Homem e a Terra que os arianos da Arménia, fortemente judaizados mas que se conservaram arianos, em Bizâncio e em todas as demais cidades aonde conduziam a sua vida errante eram consideradas como pertencentes à raça hebraica; o que demonstra que, fisicamente, arménios e hebreus se assemelham. Não é coisa de assombrar, visto que os conquistadores assírios repartiram os seus prisioneiros hebreus por centenas de milhares nos altos vales do Tigre e do Eufrates, nas montanhas da Arménia e do Cáucaso. Os semitas hebreus acharam-se assim postos em contacto com os arianos da Arménia. Até houve hebreus que chegaram a ser monarcas de toda a região do Hayastan, inclusive a Geórgia. O elemento ariano puro entrou, pois, nas mudanças étnicas dos hebreus de vários modos; através da influência arménia e da grega especialmente.

Entretanto Streicher, organizador oficial do boicote aos hebreus na Alemanha, numa entrevista com Dagens Nyheder de Copenhaga, reconheceu que os hebreus não são uma raça; na imprensa hitleriana1 lê-se com frequência a afirmação de que o povo hebreu é uma mescla de raças. Os nacional-socialistas alemães exploram na propaganda anti-semita todos os velhos clichés: o hebreu é avarento, o judeu é sensual, etc.; preservando e difundindo a superstição de que os defeitos verdadeiros e imaginários dos hebreus são um produto do sangue semita. O “nariz judeu é explorado por todos os caricaturistas, enquanto resulta dum inquérito alemão que de 13 a 14 por cento dos hebreus têm nariz aquilino, ao passo que todos os demais têm ‘nariz grego’. O parágrafo 4 do Programa Nacional-Socialista declara que os hebreus não podem ser ‘companheiros de sangue’ dos alemães, quando todas as análises comparadas do sangue demonstram que não existe ‘sangue hebraico’, nem ‘sangue germânico’, nem outro sangue nacional”.

O anti-seminismo tem necessidade de generalizar, considerar e representar o hebreu como um tipo humano fixo, reconhecível a golpe de vista2 ou mediante o olfato, como aconselha o professor Fischberg.

Pode parecer uma paródia negar a existência da raça hebreia enquanto existem os hebreus. Já dizia Schopenhauer que “a pátria dos hebreus são os outros hebreuse Renan, desembaraçado dos mitos racistas, chegava a opor a tradição hebreia à raça hebreia. Élisée Reclus observa justamente que os hebreus constituem uma nação “pois têm consciência dum passado coletivo de alegrias e sofrimentos, o sedimento de tradições idênticas como a crença mais ou menos ilusória num mesmo parentesco”. Bernard Lazare expõe este mesmo conceito, partilhado por todos os mais sérios estudos do problema hebraico.

H. Neuville, ilustrando numa conferência3 a oposição atual do problema biológico das raças, estabelecia com profunda competência e clara agudeza a questão hebreia:

A determinação física da raça judía parece impossível. O que possivelmente a designa mais claramente à atenção é, em cada grupo considerado, certas atitudes, certos gestos e, aprofundando as coisas, um espírito, que isolam essa gente fisicamente tanto como o estão socialmente. Tocamos assim num ponto geralmente muito descurado das análises raciais. Estas versam essencialmente, e muito amiúde de modo exclusivo, sobre características físicas consideradas como transmitidas hereditariamente no seio da raça e que lhe asseguram a sua continuidade através do tempo e dos cruzamentos. Quanto mais andamos em busca desta continuidade, mais se comprova que ela é enganosa. Os cruzamentos incessantes das raças civilizadas remove-as desde há tempos em mesclas das quais surgem de pronto traços dos mais diferentes tipos antigos. Nas raças que se conservaram primitivas a mescla, muito menos complexa, já está contudo num grau suficiente para tornar mais ou menos difícil o estabelecimento dum sinal racial que tenha algum real valor geral. O facto é que no estado atual, mais até do que por uma persistência e uma fixidez de características físicas, os grupos étnicos distinguem-se uns de outros por características de ordem intelectual, ao ponto de se ter podido propor para definir a raça doravante: um conjunto de pessoas que têm uma mentalidade comum e gestos comuns.

Os judeus não escaparam a esta regra, que é talvez particularmente acentuada em alguns dos seus agrupamentos. Vemos neles fatores que não estão limitados ao seu caso, mas que se apresentam desde tempos atrás com força típica. Os cristãos tiveram primeiro mentalidade de escravos; depois, de perseguidos; já tornados poderosos, adquiriram, pelo menos na pessoa dos seus chefes, mentalidade de perseguidores, que exerceram sobre os judeus israelitas depois de o terem feito com os árabes muçulmanos, e antes de o fazerem com os índios, os negros e os tasmanianos e, entretanto, com os albigenses e bastantes outros. Esta mentalidade foi-se desenvolvendo enquanto que, por um inevitável contragolpe, os judeus assumiam cada vez mais mentalidade de perseguidos. Uns e outros adquiriam assim características novas que não eram essencialmente originais e raciais, tanto nestes como naqueles. Semelhantes aquisições apresentam-nos factos cujo alcance seria pueril desconhecer.

Os nossos atos acompanham-nos, disse um romancista cuja moral retrógrada se baseia nesta ocasião sobre algumas realidades biológicas; esta – pois creio que é uma – tem algo de animador, já que reconhece a cada um a possibilidade de ser por uma parcela dono do seu destino e até, hereditariamente, do da sua progenitura. Os cristãos tornaram-se de certo modo perseguidores natos; selecionados como tais pela herança e a influência do meio, os seus atos acompanhavam-nos. Mas não são só os nossos atos que nos seguem: os dos nossos vizinhos também nos acompanham e influenciam. Enquanto os cristãos se faziam perseguidores, os judeus sofriam inelutavelmente a influência da hostilidade sob a qual viviam; os atos dos seus vizinhos seguiam-nos também. Fisicamente a vida do gueto marcava-os, individual e hereditariamente. Condenados a não poder praticar senão certas profissões, tomavam fatalmente os hábitos profissionais das mesmas: possuindo conjuntamente o gosto hereditário das especulações intelectuais refinadas em que participavam com os árabes e influiu tão vivamente na obra científica destes, que adquiriram uma índole de espírito particular; não menos do que o seu hábito físico sob as suas diversas aparências atuais, esta presença de espírito não lhes é original e verdadeiramente racial. Tudo isso contribuiu para os diferenciar sem lhes poder dar uma homogeneidade étnica incomparável com o facto da sua dispersão nos mais diversos meios.

Entre os grupos que formam atualmente, há pouca ou nenhuma semelhança, e em rigor poder-se-ia fazer deles outras tantas raças distintas. Isto fornece-nos agora – nunca é demais insistir nisto – um exemplo particular dum processo que antigamente foi muito geral: o da diferenciação das raças humanas após a dispersão dum primeiro grupo da humanidade. Num e noutro casos vemos separar-se um grupo inicial de certa homogeneidade, submeter-se a diferentes ações do meio, chocar com várias dificuldades mas sempre importantes, vergar-se a elas ou desviá-las, vendo desaparecer os mais débeis ou os menos ousados. Quem não pensaria a este último respeito nos numerosos suicídios de judeus alemães sob o efeito das perseguições atuais? A dispersão e a diferenciação dos grupos judeus reproduzem, pois, em pequena parte, as da humanidade inteira, e, por uma comparação legítima, informam-nos sobre a evolução primária desta.

A análise é longa, mas – parece-me – conclusiva. Podemos, por conseguinte, examinar rapidamente a evolução que tem sofrido o conceito de raça.

A raça

Até ao século XVII a humanidade foi considerada como repartida em três grandes famílias: as de Sem, Cam e Jafet. As considerações de raça só se faziam entre os educadores. Buffon e Lineu foram quem introduziu essas considerações na linguagem científica criando a etnografia. Lineu, empreendendo a classificação dos seres vivos, atreveu-se a incluir o homem nas categorias animais. Conforme a tradição bíblica, considerou as três grandes famílias como descendentes todas dum só casal, ou seja, formando uma só espécie: a do Homo Sapiens. Contudo, dividiu esta espécie em quatro grupos: brancos, amarelos, negros e vermelhos, aos quais chamou respetivamente na sua repartição geográfica: Homo Europaeus, Homo Asiaticus, Homo Afer e Homo Americanus. O texto de Lineu não permite saber se considerava realmente estes grupos como espécies diferentes ou como variedades duma mesma espécie. A primeira tese ter-lhe-ia sido perigosa e porventura não se atreveu a enunciá-la. Buffon abordou a questão com a maior franqueza, mas também se revela prudente. Para ele não há mais do que uma só espécie humana, de cores diversas em relação com o solo e o clima; as diferenças desta espécie correspondem às simples variedades dos animais selvagens e às raças dos animais domésticos.

No século XIX apresentaram-se três correntes que são, no fundo, três fases evolutivas do problema; a primeira tendente a uma classificação etnográfica; a segunda, a uma classificação glotológica; a terceira tendendo a uma classificação antropológica.

O antropólogo alemão Blumenbach (1840) adotava a classificação de Lineu e, sucedendo às suas próprias investigações na Oceania, acrescentava às quatro raças pré-citadas a raça malaia.

Com Cuvier a classificação das raças tende a fazer-se antropológica, isto é, a ter em conta as particularidades físicas ao invés da posição geográfica das raças. Cuvier distingue três únicas raças baseando-se na cor da pele e nas qualidade do cabelo; a raça branca, a raça negra e a raça amarela.

Seguidamente designaram-se com o termo raças os diversos grupos linguísticos, e no transcurso do século XIX Max Müller, Whitney, Oppert e outros autores sustentaram que a língua era o critério das raças. Ainda hoje se ouve falar de raça eslava, de raça germânica, etc. Estas denominações não são conformes ao ponto de vista antropológico, que entende por raça uma série de particularidades físicas transmitidas de geração em geração. A unidade linguística dum grupo humano não implica necessariamente uma homogeneidade física.4

O termo “tipo antropológico”, mais recente que o de “raça”, foi introduzido por Paul Broca e adquiriu significado à medida que as investigações permitiam distinguir nos grupos, todavia fixados segundo a pigmentação da pele e do sistema pilífero, certas diferenças de estrutura física: forma da cabeça, da cara, dos olhos, do nariz, etc. O conjunto destas particularidades, unido à cor da pele, dos olhos e do cabelo, constituem um tipo antropológico. No artigo citado observa o professor Rosinsky:

A aceitação deste termo é puramente biológica e não poderia ser confundida com a noção de nacionalidade, que implica principalmente as características linguísticas e culturais.

Os tipos antropológicos da população europeia possuem centros geográficos. Contudo, os seus limites estão longe de se conformar às fronteiras étnicas e, com maior razão, políticas. Cada nacionalidade compõe-se de vários tipos antropológicos cujas relações numéricas variam segundo a região. Na Europa distinguimos quatro tipos antropológicos primitivos e seis tipos mistos ou secundários. São os tipos nórdico, laponóide, armenóide e ibero-insular (mediterrâneo). As características próprias de cada um destes tipos transmitem-se por via hereditária, isto é, se ambos os pais pertencem ao tipo nórdico todos os seus filhos pertencerão a essa mesma categoria. Entende-se por tipos secundários os descendentes de uniões mistas; assim, se um dos pais representa o tipo nórdico e o outro o laponoide, os filhos pertencerão ao tipo secundário, chamado sub-nórdico.

Assim como cada nacionalidade apresenta uma diversidade dos tipos antropológicos, também se encontram alguns destes tipos no seio de várias nacionalidades.

A partir de Darwin o conceito de raça humana está em estreita conexão com o de herança, e o problema das raças aparece como um problema biológico.

H. Günther define a raça como “um grupo humano que se distingue de outros grupos humanos por características físicas e morais que lhe são próprias e se transmitem hereditariamente”.

A questão da unidade da espécie está a ser resolvida num monogenismo científico que coloca em pleno valor, aclarando as variações, o fator vida social.5 O professor Schaxel, num artigo intitulado “A teoria das raças tem fundamento?(Monde, Paris, 28 de outubro de 1933), explica claramente o estado atual do problema:

Conhecemos a lei que determina o reaparecimento de características semelhantes nas gerações sucessivas. Atribuímos à herança a parecença dos pais, nos quais as características observadas, consideradas quantitativa, qualitativa e cronologicamente são idênticas, na medida em que esses fatores hereditários podem ser observados em ascendentes ou descendentes. Um grupo determinado hereditariamente deve, pois, apresentar certas características bem precisas. Não é possível reproduzir semelhantes características com a precisão necessária senão mediante uma série de experiências estritamente verificadas. Em geral, o controlo científico necessário não pode ser realizado mais do que nos casos de reprodução assexuada ou incestuosa. Nos demais casos trata-se de grupos mesclados impossíveis de estudar ou de tomar em consideração, tanto do ponto de vista da ciência da hereditariedade como do ponto de vista raça. De resto, o mesmo “produto” hereditário desenvolve-se de forma completamente diferente segundo o meio exterior. Não é possível nenhuma comprovação sem ter em conta cientificamente a influência do meio.

Aplicado à humanidade, isto não significa outra coisa senão que todos os grupos humanos atuais, e mais notoriamente os habitantes da Europa Central, são “produtos” mesclados, mesmo que só se tratasse do ponto de vista hereditário. Agora é preciso ter em conta a situação geográfica e social do indivíduo, o seu meio, no qual o homem se desenvolve de maneira absolutamente independente das suas complexas origens hereditárias. Os fatores económicos e sociais determinam o seu destino.

Do ponto de vista científico nada mais cabe acrescentar sobre a sua qualidade racial.

Desta rápida olhada ao estado atual da biologia das raças, parece-me claro que a raça não pode mais aparecer como primeira causa, como origem absoluta das características físicas e psíquicas que se anotam descrevendo um grupo humano, mas sim como o conjunto enumerativo dessas características. A raça não aparece como expressão duma simples lei, mas como o resultado extremamente complexo de toda uma série de influências.

O tipo antropológico

Os antropólogos atribuem geralmente um grande valor ao índice cefálico6 e dividem as raças, segundo esse índice, em dolicocéfalas, braquicéfalas e mesaticéfas. Vão muito longe na elaboração dos métodos antropométricos que são a base dos estudos antropológicos. É enorme e praticamente pouco aplicável o número de medidas que devem ser tomadas sobre o ser vivo e sobre o esqueleto. As medidas relativas à cabeça consideram-se de uma importância preponderante, mas hoje sabemos que tipos étnicos muito diversos apresentam o mesmo índice cefálico ou um índice muito semelhante, enquanto tipos étnicos afins apresentam índices diversos. A influência do ambiente modifica o índice cefálico; segundo alguns autores a vida nas cidades alarga o crânio, segundo outros estreita-o. O antropólogo estadunidense Boas (um hebreu alemão) teve a ideia de observar o índice cefálico em grupos de imigrantes e a sua descendência, chegando a comprovar este facto, muito discutido: o índice dos descendentes de imigrantes afasta-se do dos progenitores para tender até uma medida que pareceria tornar-se típica na população urbana dos Estados Unidos, tendente à redondeza cefálica. Os italianos do Sul imigrantes nos Estados Unidos chegariam a ser braquicéfalos, enquanto os hebreus russos se tornariam dolicocéfalos.

Os cientistas estadunidenses sustentam que os anglo-saxões com residência de mais de dois anos na América se aproximam do tipo de pele vermelha. No seu artigo “A vontade” (Paris, 12 de junho de 1933), o sociólogo francês Agustin Hammon disse:

Um grande sábio escocês, Patrick Geddes, dizia-me um dia: há mais de 35 anos que os homens dolicocéfalos de grande estatura, louros e de olhos azuis, tendem a desaparecer nas Ilhas Britânicas. Era um facto que resultava de numerosas comprovações. E em 1914 e 1915, aquando da guerra, eu mesmo o comprovei vendo o grande número de soldados britânicos pequenos, de cabelo escuro e de cabeça redonda ou quase redonda.

As opiniões dos antropólogos estão divididas, mas desta mesma divisão resulta que no índice cefálico se apresenta agora muito inconstante para proporcionar algo mais do que um simples argumento a favor desta ou aquela origem étnica, argumento que deve ser corroborado com muitos outros e que, mesmo associado com outros, não pode ser admitido como absolutamente probatório.

O índice nasal, além de requerer uma medição muito esmerada (dada a miudeza das linhas, um ínfimo erro basta para alterar sensivelmente a exatidão das medições), tem uma importância discutível dado que, como demonstraram Thompson, Buxton e Davies, as variações são notáveis, pois em climas quentes e húmidos os narizes são mais largos, e mais estreitos em climas frios e secos. Note-se que o Instituto de Antropologia da Universidade de Kiel está a desenvolver uma espécie de censo étnico baseando-se na antropometria e especialmente nos índices craneano e nasal.

Frick, então ministro do Interior do Reich, dizia num discurso: “O estudo das raças deverá ser cultivado em todos os graus do ensino com o fim de exercitar o golpe de vista das crianças na distinção das raças” (Voelkischer Beobachter, 10 de maio de 1933). Em Michael escrevia Goebbels: “Para mim o hebreu é objeto de nojo físico. Só de o ver sinto náuseas”. Seria como, para fazer um volume, querer citar esta fixação do tipo antropológico na Alemanha, que se estende não só às características morfológicas externas como também à constituição sanguínea. Nos artigos, discursos e canções dos hitlerianos fala-se muito de “sangue ariano” ou de “sangue germânico” e exploram-se as investigações bio-antropológicas sobre diversas propriedades fisico-químicas do sangue humano, falseando descaradamente os resultados. As observações neste sentido deram resultados completamente desconcertados em relação com a individuação racial. Os exames serológicos nos australianos, a menos mesclada das raças atuais, demonstraram que há neles muito distintas propriedades sanguíneas. No século XIX no Congresso Internacional de Medicina Legal e Social os doutores Dujarric de la Riviere e Kossovitch, baseando-se em mais de 400 populações com autonomia política e social, demonstraram que existe em todos os povos uma extremada mescla de sangue.

Fica, pois, por demonstrar que as propriedades do sangue estão ligadas à origem racial mais do que às condições gerais biológicas e as constituições particulares de cada um.

É ainda invocado o odor humano como fator do tipo antropológico, mas este fator tem também muito pouca importância nas individuações raciais. Uma das secções do Instituto Alemão de Estudos sobre as Raças ocupa-se tão ativa como tendenciosamente do aspeto olfativo das raças, e foram publicadas memórias muito eruditas sobre este argumento, obra de três teóricos do racismo: Günther, Fischberg e Genning. Günther atribui o odor específico de cada raça em parte à hereditariedade, e em parte ao ambiente, mas não chega às extravagâncias de Fischberg, que sustenta que os hebreus desprendem um odor mais agudo e mais desagradável que o dos negros, e que se os arianos podem suportar a vizinhança dos semitas é porque estes neutralizam o odor da sua pele com todo o género de perfumes e cosméticos. Genning, como Herr Ellis, chega a desaconselhar o matrimónio entre arianos e hebreus e vice-versa, devido ao insuportável odor semita que impede a harmonia conjugal.

O engraçado é que um especialista nestes estudos, o japonês Adaki, assegura que os seus conterrâneos se sentem excessivamente incomodados pelo odor dos brancos, que para o olfato dos japoneses, mesmo dos especialistas em matéria de odores raciais, fedem todos igual; quer sejam italianos ou escandinavos, hebreus ou alemães dolicocéfalos e louros.

Nação, raça e classe

Se Günther, o papa racista do Reich, reconhece que “os povos representam mesclas de raças e não raças”, afirma que o que distingue um povo de outro é “o grau de mescla das raças”. Segundo Günther o povo alemão está composto de sete raças “arianas”. As qualidades psíquicas das raças seriam hereditárias e determinadas de tal modo que fazem dum homem um génio ou um criminoso.

Günther atribuiu as melhores qualidades ao homem nórdico, que constituiria 6 a 8 por cento do povo alemão, apresentando as demais raças como inferiores ou medíocres.7 Este “nordismo” de Günther gerou uma oposição que tomou a defesa das outras seis “almas raciais arianas”. Rosenberg, um dos teóricos do hitlerismo, responde a esses opositores: “A esses trombeteiros tipicamente talmudistas deve-se contestar que, se a ciência racial comprova cerca de cinco raças na Europa, cada uma com o seu carácter, temperamento e estado de espírito à parte, fica fora de dúvida que a nacionalidade alemã não representa igual mescla, mas que a sua origem é germânica (nórdica) em 80%”.

Como se vê, Rosenberg aproxima-se do antropólogo Saller, o qual criou a noção de “raça germânica”, caracterizada pelo crânio redondo.

Por um lado, o hitlerismo tende a afirmar a unidade racial do povo germânico; por outro, tende a reconhecer o predomínio da raça nórdica na mescla de raças.

Por um lado, tende-se a negar as classes para afirmar a unidade nacional e de raça; por outro, atribui-se à raça superior uma supremacia de casta. Hitler disse num discurso: “Aqui, na Alemanha, onde cada alemão tem o mesmo sangue, os mesmos olhos e fala o mesmo idioma, não pode haver classes; só há um povo e nada mais”. Noutro discurso, assegurava: “O nacional-socialismo reconhece a existência das diferentes substâncias raciais no nosso povo. Longe de rejeitar essa mescla que constitui o conjunto da expressão de vida do nosso povo, deseja ser conduzido politicamente por esta raça cujo heroísmo único, graças ao seu génio interior, criou o povo alemão dum conglomerado de partes diferentes”.

A “comunidade nacional” alemã resultaria, pois, de seis raças, das quais uma só seria criadora. A “raça germânica” de Saller serve para dar uma base biológica à “comunidade nacional”, mas não serve para justificar o privilégio burguês e a ditadura hitleriana. O Terceiro Reich apoiou-se, por conseguinte, na teoria de Günther:

Estaremos na necessidade de supor que, no seio de cada povo ou tribo de todos os continentes, as camadas dirigentes têm composição racial diferente da das camadas dirigidas. Em certos casos as camadas dirigentes e dirigidas apresentam-se como dois grupos de sangue da mesma raça, mas de diferente quantidade. No que concerne aos povos ocidentais, encontra-se nas camadas superiores uma quantidade mais elevada de sangue nórdico, faliano e dinárico; nas camadas inferiores, ao contrário, encontra-se mais sangue oriental e báltico.

A classe social e politicamente dominante seria a raça superior. A elevação do proletariado traria à superfície os estratos inferiores.

O privilégio de classe foi transformado em privilégio de raça, fazendo estragos não só na antropologia mas no mais comum bom senso.

Em pleno delírio

Eis aqui uma mão-cheia de notícias alemãs que dão ideia do grau de loucura do racismo hitleriano:

O ministro dos Correios, Telégrafos e Telefones do Reich informou o público de que doravante deverá empregar os seguintes nomes quando desejar soletrar um nome por telefone: Dora em lugar de David, para o d; Juliano em lugar de Jacó, para o j; Siegfried em lugar de Samuel, para o s; Zeppelin em lugar de Zacarias, para o z”.

O filme Tifon, com base na peça do autor húngaro Lendengyel, foi proibido na Alemanha. A comissão de controlo justifica o seu ato fazendo notar que, no filme, é um japonés que se conduz de maneira exemplar. Os brancos têm todos uma conduta muito má. “O japonês, com quem a heroina trava conhecimento, é um cavalheiro irrepreensível. Por outro lado, o filme mostra franceses e de nenhum modo trata de alemães […] Em resumo, considera-se esta obra uma ofensa, por omissão, à raça ariana, cuja superioridade nem sequer foi indicada”.

Para provar o alto grau de cultura dos antigos germanos, conforme as instruções oficiais, um professor da Universidade de Göttingen teve recentemente a ideia de apresentar a sua mulher numa grande reunião mundana, tocada com vestido de noite copiado exatamente dos vestidos em voga entre os germanos há cerca de dois mil anos”.

A associação de cegos da Alemanha acaba de decidir inscrever nos seus estatutos um parágrafo anunciando a exclusão dos cegos judeus”.

Notícias deste género poder-se-ia reunir em quantidade. Igualmente fácil seria compilar uma antologia da loucura hitleriana. Eis aqui como Alfred Rosenberg, no seu livro O Mito do Século XX, trata o problema das raças (pp. 128, 505, 584):

Se as mulheres das nações europeias continuarem a dar à luz bastardos de negros e judeus, se a onda pantanosa da “arte negra” continuar a romper pela Europa sem encontrar mais obstáculos do que hoje, se a literatura judia de bordel continuar a penetrar nos lares e se os sírios da Kurfürstendamm continuarem a ser considerados irmãos de raça (Volksgenosse) e homens com quem se pode casar, chegar-se-á a uma situação tal que a Alemanha e a Europa inteira nos seus centros espirituais estarão povoadas unicamente por bastardos […] Se uma alemã se liga por sua própria vontade com negros, amarelos, mestiços ou judeus, coloca-se fora de toda a proteção legal e os seus filhos, legítimos ou ilegítimos, não poderão obter os direitos de cidadãos alemães. A violação cometida por um indivíduo de raça diferente será castigada com o açoite, os trabalhos forçados, a confiscação dos bens e a expulsão perpétua do Reich alemão.

O bolchevismo significa a rebelião do tipo mongol contra as formas culturais nórdicas. Expressa o ódio dos nómadas contra os indivíduos estáveis.

O professor Ernst Bermann (Erkentnissgeist und Muttergeist) propõe campos de produção da raça nórdica. “Para a fecundação de mulheres e donzelas há bastantes homens e jovens de boa vontade e trabalhadores, e felizmente basta um varão vigoroso para dez a vinte mulheres que não tenham sufocado ainda nelas a vontade de ter filhos, se apenas se pudesse aniquilar a loucura cultural e contranatura da monogamia eterna” (Cit. Por Le Livre Brun, ed. Francesa, pp. 202-203).

O teórico nacional-socialista Gorsleben, no seu livro O Apogeu da Humanidade propugna a “procriação à distância”:

A vida duma mulher é em grande parte determinada pelo homem a quem ela se deu virgem; os filhos que esta mulher der ao mundo estarão mais ou menos influenciados por esse primeiro homem. A ciência chama a esse fenómeno a procriação à distância […] Estabelecido isto, vê-se que o velho costume do direito de pernada, isto é, a desfloração da virgem por um senhor ou um sacerdote, tinha por objetivo o melhoramento da raça. A esse direito devemos a existência duma humanidade racial e espiritualmente muito elevada em certas regiões (Cit. Arbeiter Zeitung, Viena, 16 de janeiro de 1934)

Darré, ministro da Agricultura do Reich, escreveu um livro erudito para demonstrar que “o porco serve de criterium para distinguir os povos nórdicos dos semitas”. A conclusão é esta:

Dum lado os semitas rejeitam tudo quanto concerne ao porco, mas os povos nórdicos, contrariamente, outorgam ao porco as maiores honras. O porco é o animal sagrado do culto solar nórdico.

No culto dos germanos o porco ocupa o primeiro posto e é o primeiro entre os animais domésticos.

Assim, das trevas da história surgem duas raças humanas, cuja atitude em relação aos porcos apresenta um contraste absoluto.

E para terminar, eis aqui um extrato de Auch Dumisst mit, novela na moda que constitui um típico espécimen da literatura nazi:

Ela inclinou-se mais sobre ele. Abraçaram-se, Gerda não o soltou mais e rodeou-o, qual uma serpente… Horst estava enlouquecido. A lua brilhava sobre o corpo de Gerda. Quando ele voltou a si Gerda jazia esgotada sobre o divã, e Horst mesmo não sabia como tudo tinha ocorrido… Sentia-se estranho a si mesmo. Que era feito do outro Horst? Onde estavam as suas boas intenções?… Ele tolerou o seu abraço, bocejou e tomou o caminho de regresso… (p.105).

O quê?, exclamou Horst consternado, o quê? Gerda uma comunista? Não me digas mais; vou cortar com ela hoje mesmo. Muitas coisas se aclararam em mim; o meu instinto não me enganava; há nela algo de abjeto… (p. 125).

O exame do delírio racista no campo cultural alemão seria matéria para um livro. Aqui bastará recordar alguns pontos programáticos da proclamação “Contra o espírito não-alemão”, lançada a 13 de abril de 1933 pela Associação de Estudantes Alemães:

  • Os judeus e os seus lacaios são os nossos adversários mais perigosos.

  • O judeu não pode pensar senão em judeu. Se escreve no nosso idioma, mente.

  • Respeitamos o judeu como estrangeiro e julgamos seriamente o seu caráter racial. Também exigimos a censura das obras judias que aparecerem em hebreu. Se aparecerem em alemão deverá mencionar-se que se trata duma tradução. Convirá reprimir rigorosamente o uso ilícito da escritura “gótica” que unicamente os alemães estarão autorizados a empregar.

Filósofos, físicos, fisiólogos, literatos, músicos, etc., tiveram de deixar a Alemanha só porque “não-arianos”. O êxodo cultural está personificado em Einstein e Hirschfeld, o literário em Toller e Plivier, o musical em Walter e Reinharth, e as mortes do filósofo Lessing e do poeta Müsham demonstram que o terceiro Reich é uma segunda Idade Média.

Ao célebre diretor de orquestra “ariano” Furtwaengler, que escrevia, “Não conheço mais do que uma fronteira: a que separa a boa arte da má”, Goebbels respondia, “Não conhecço a existência da sua única fronteira. A arte não deve ser somente boa; também deve ser nacional e combativa” (Frankfurter Zeitung, 11 de abril de 1933).

Este monstrillo declarava numa entrevista ao Sunday Referee (30 de julho de 1933): “Durante 14 anos o nosso grito de guerra foi: Morra Judas! Que a judearia pereça, pois, duma vez!

A música de jazz foi proibida por Goebbels enquanto música negra, mas ele declarou “ariano” o saxofone, porque foi “inventado pelo alemão Adolf Sax” e porque serve nas músicas militares.

Toda a Alemanha está a delirar. O papa Pio XI é apresentado como “filho ilegítimo duma judia neerlandesa de nome Leitman”, ou seja, como “um vulgar judeu”,8 o presidente do Conselho de Estado de Sievig ordena suprimir a lenda do sacrifício de Isaac,9 aos hebreus alemães é-lhes proibido o acesso às praias e aos banhos públicos10 e são condenadas as relações sexuais entre arianos e hebreus. Este último aspeto do delírio racista merece um exame particular.

O matrimónio racista

Hitler declarou num discurso: “o terceiro Reich não se baseia no princípio da monogamia. O adultério não é considerado um crime a não ser quando é suscetível de afetar a pureza da raça, isto é, se uma mulher ou um homem alemães têm relações sexuais com negros, amarelos, judeus, etc.”.

Em agosto de 1933 o Berliner Tageblatt publicava a seguinte notícia:

O Pastor Munchneyer declarou em Nuremberg que nenhum dos partidos políticos alemães, desde os comunistas até aos deutschnacionais, estava imbuído do sentimento de honra alemão, pois todos permitiam aos judeus representar no seu seio um papel preponderante. Só o movimento nacional-socialista reclama, em nome da honra alemã, a libertação do país das cadeias do judaísmo. Todo o judeu que seduza uma mulher alemã merece a pena de morte.

Nesse mesmo mês o nazi Julius Streicher, num artigo aparecido em Der Sturmer, de Nuremberga, punha no pelourinho as raparigas alemãs culpadas de amar hebreus.11

Em agosto de 1933 uma correspondência do Times assinalava este ignóbil episódio:

O filho e a filha do embaixador dos Estados Unidos em Berlim achavam-se entre os estrangeiros radicados em Nuremberga, quando domingo dia 13 viram uma jovem conduzida através das ruas, com a cabeça rapada, levando um cartaz aos ombros, em que se lia: ofereci-me a um judeu.

Muitos outros estrangeiros foram testemunhas oculares deste espetáculo. E fez-se ostentação desta mulher de tal maneira que toda a cidade pôde contemplar a cena.

A mulher era pequena, frágil, visivelmente bela. Foi levada de um hotel internacional a outro, também perto da estação, onde a multidão parou o trânsito, assim como de cabaret em cabaret. Tinha uma escolta de homens das tropas de assalto; e seguia-a uma multidão estimada em 2000 homens.

Amiúde tropeçava, mas os vigorosos camisas cinzentas que a acompanhavam voltavam a pô-la de pé e seguravam-na para que os espectadores mais distantes pudessem vê-la. Da multidão partiam gritos e zombarias…

Em setembro do mesmo ano uma correspondência berlinense comunicava os factos seguintes:

Por ter tido relações com uma jovem cristã, um judeu de Cassel, filho dum diretor de usina, foi passeado pela milícia hitleriana pelas ruas da cidade com a jovem e a mãe desta.

A Hessiche Volkswacht diz que esta humilhação pública foi decidida porque a jovem considerava que o governo não podia proibir-lhe de amar esse jovem. A mãe foi castigada por ter tolerado essas ações.

Ademais, o Oberhessische Zeitung assinala que por motivo análogo uma jovem cristã foi passeada pelas ruas de Marbourg.

Por fim, em Worms um comunicado da polícia local relata que um israelita foi internado por ter tentado frequentar uma cristã.

Em novembro os diários publicaram esta notícia:

O prefeito da polícia de Harbur-Wilhelmsburg comunicou uma nota fazendo saber que um empregado de comércio não-ariano e uma vendedora cristã, “raça pura”, foram entregues à polícia pelos membros das secções de assalto. Os milicianos chegaram a estabelecer, não sem dificuldade, as “relações culpáveis” que mantinham esses representantes de raças diferentes. Os delinquentes, por outro lado, “confessaram a sua vergonha”.

O prefeito da polícia informa “a todos os interessados que será castigado com o máximo rigor todo o atentado à pureza da raça, ainda antes da promulgação da lei prevista”.

Manifestos profusamente distribuídos ameaçam desfigurar as jovens alemãs que tenham relações com hebreus.12

Um projeto de lei do professor Stammler “para a conservação da pureza da raça” propõe:

1. Estão proibidos os casamentos entre as raças alemãs e estrangeiras. Os que existem conservam a sua validade; não podem ser levados a termo novos casamentos e não são reconhecidos.

2. As relações sexuais extraconjugais entre alemães e estrangeiros de raça são suscetíveis de penas correcionais para a parte estrangeira e de prisão para a parte alemã. As prostitutas não se acham consideradas nesta lei.

3. A entrada no país para os estranhos à raça não é autorizada a não ser em casos especiais.

4. As mudanças de nome que em geral não têm outro objetivo do que dissimular a origem racial estão proibidas até nova ordem. Ficam anuladas as abtidas desde 1914.

O documento mais importante na matéria é o Direito Penal Racista de Hans Kerre, ministro da Justiça da Prússia (1933). Esta obra representa um projeto de código penal e é precedida por uma memória explicativa. A segunda parte do projeto intitula-se: Defesa da Raça e do Povo e começa com um capítulo (sobre os “ataques contra a raça”) que contempla dois novos delitos: Traição à raça e Ofensa à honra da raça:

Toda a relação sexual entre uma pessoa alemã e uma pessoa de raça estrangeira será considerada como traição para com a raça e ambos os culpados serão castigados. Mesmo quando se tomem medidas de precaução nessas relações, nem por isso deixam de ser consideradas relações sexuais que caem sob o rigor da presente lei. O facto de dissimular intencionalmente a sua raça, quer seja nas relações sexuais fora do matrimónio ou no matrimónio, será considerado como circunstância agravante.

Do ponto de vista do direito civil, os matrimónios entre pessoas de diferente raça serão declarados nulos.

Aquele que facilite13 as relações sexuais entre uma pessoa de raça alemã e uma pessoa de raça alheia14, contribuindo assim para a decadência e desmoralização do povo alemão, tornar-se-á culpado de traição para com a raça. Esta traição terá também lugar mesmo quando se tenham tomado medidas contra a concepção.

A ofensa à honra da raça é punível pelo artigo que diz: “Um alemão que ofende os sentimentos alemães por relações estabelecidas com pessoas pertencentes a raças de cor, torna-se culpado de ofensa à honra alemã”.

A memória justificativa esclarece que este artigo não se refere às relações sexuais, e sim à conduta em público com uma pessoa de cor. Por exemplo, “o baile indecente com um negro num local público”.

Eis aqui o decálogo do matrimónio alemão formulado pelo doutor Heinsius, de Berlim, em colaboração com o ministro do Interior do Reich, o gabinete de higiene popular e a gabinete racista do partido nacional-socialista:

  1. Pensa que és alemão.

  2. Deves casar-te se és de herança sã.

  3. Conserva são o teu corpo.

  4. Mantem sãos o teu espírito e a tua alma.

  5. Como alemão não escolhas por cônjuge senão uma pessoa alemã ou de sangue nórdico.

  6. Quando escolheres o teu marido informa-te sobre os seus antepassados.

  7. A saúde é também uma condição da beleza exterior.

  8. Não te cases sem ser por amor.

  9. Não escolhas um camarada de jogo, mas vê no teu cônjuge um companheiro no matrimónio.

  10. O verdadeiro sentido do casamento é uma posteridade sã. A preservação fica assegurada a partir do terceiro ou quarto filho.

O oitavo mandamento é o mais difícil de respeitar seguindo as recomendações matrimoniais em voga da imprensa alemã. Num artigo da revista hebdomadária berlinense Das Wissen der Nation (6 de agosto de 1933) recomenda-se a cada cidadão de raça pura “desposar uma ariana loura, de olhos azuis, cara oval e pele branca, e não unir-se a uma jovem morena de raça mediterrânea, de tronco largo, pernas curtas, cabelo negro e lábios carnudos”.

O ariano consciente e consequente não se casará com uma mulher mediterrânea e tampouco desposará uma jovem que tenha frequentado muito as festas ou o teatro, que tenha feito desporto ou exerça uma profissão liberal. “Não se casará senão com uma jovem trabalhadora, boa ama de casa e que ame as crianças”.

A esposa ideal, pois, deve ser ariana, nórdica, caseira, disposta a ter muitos filhos, não deve ter hebreus entre os seus antepassados e deve ser sã. O amor antropológico-eugénico-hitleriano-racista já não é mais o Cupido vendado mas um mago de óculos armado de instrumentos antropométricos, leis racistas, decálogos matrimoniais e árvores genealógicas.

A esterilização hitleriana

A esterilização hitleriana é justificada com critérios eugénicos, médicos nacional-socialistas consideram-na ainda um sistema ligado à pureza das raças. O doutor Vellut escreve numa importante revista médica (Aerzliche Mitteilungen, Leipzig, 20 de maio 1933) exaltando a esterilização: “A infiltração de sangue estrangeiro no organismo do nosso povo deve ser impedida. Os judeus, mongóis e outros poderão, por conseguinte, ser esterilizados legalmente com o seu consentimento, quer sejam indivíduos sãos ou enfermos”. Poder-se-ia, pressupõe o doutor, “facilitar aos indivíduos de raça alheia a decisão de se esterilizarem mediante uma gratificação não muito baixa”.

Que garantias pode dar a Alemanha hitleriana sobre a liberdade de esterilização? Hebreus excluídos das profissões e dos postos de trabalho, ameaçados, numa atmosfera pogromista, poderiam aceitar a esterilização, por fome, como única tábua de salvação. Quantas e que pressões podem realizar-se num país como a Alemanha de hoje? O chefe da polícia de Frankfurt-Mein, Von Westrer, disse no decurso duma manifestação hitleriana de março de 1933: “A Alemanha despertou. Não tremeis, judeus, seguiremos na legalidade, mas seremos legais a tal ponto que esta legalidade chegará a ser modesta para vós. Então podereis voltar à Palestina e esfolar-vos reciprocamente lá”.

A perseguição legal contra os hebreus é duma brutalidade tal que o doutor Toulouse, partidário entusiasta da esterilização, até escrevia no diário parisiense L’Oeuvre de 28 de julho de 1933: “Não discutirei aqui o uso que Hitler pudesse fazer do seu decreto, que tem por notório objetivo aprefeiçoar a raça alemã. Não é que o desígnio seja irrazoável; é mister que não sirva a fins políticos indefensáveis”.

A esterilização hitleriana já foi aplicada por razões políticas e chegará aos mais fantásticos absurdos. Para justificar a transposição da esterilização do eugénico para o racista estão sendo resumidas velhas teorias sobre a patologia hebraica, das quais a crítica médica fez justiça.15

Conclusões

O problema aqui tratado de modo muito sumário é vasto e complexo, e não me pude propor mais do que reclamar a atenção da juventude estudiosa sobre o problema das raças. Parecia que agora se teria superado o preconceito de raça nas classes cultas das nações mais progressivas. Contrariamente, ele persiste. Na Áustria, em outubro de 1933, um divórcio entre um ariano e uma hebreia pronunciou-se com uma sentença em que figura a incompatibilidade de carácteres resultante da diferença de raça de ambos cônjuges, diferença que deve “numa simbiose tão íntima como o matrimónio, provocar infalivelmente profundos conflitos”. Na Letónia o partido nacional-socialista propugna a interdição dos matrimónios entre hebreus e não-hebreus. Em França constituiu-se uma Liga Céltica notoriamente racista e anti-semita. Nos Estados Unidos da América há leis que proíbem o matrimónio entre negros e brancas, universidades que permanecem fechadas aos estudos negros, antropólogos que falam de raça americana (e não falemos nos linchamentos!). E entre os títulos que prevalecem na imprensa nacionalista italiana encontram-se estes: a raça, a estirpe, o grito da estirpe, etc.

Foi-me dito que Rudolf Rocker publicou uma interessante e valiosa obra sobre a questão das raças. Espero que seja traduzida em todos os idiomas principais, dado que a questão das raças está destinada a apresentar-se em cada crise profunda em que caia uma nação. Como não sou um especialista da matéria, não pude mais do que oferecer uma introdução vulgarizada ao estudo da mesma.

Paris, novembro de 1934


1Entre os livros queimados encontravam-se obras científicas de Wassermann, Freud, etc.

2Na “História de Ottal Jarl”, Gobineau faz ressaltar as origens da própria família dum filho do númen escandinavo Odino.

3As Pléyades é precisamente o título do romance em que se encontra exposta esta ideia. Mas que missão cumprem os três jovens “calenders” que se encontraram! As suas vicissitudes não são, em substância, mais do que três belos e nobres contos de amor.

4Sobre Gobineau existem ótimos estudos. Entre os mais recentes vejam-se L. Gigili, “Vita di Gobineau”, Milão, 1933; Faure Biguet J. N., “Gobineau”, Paris, 1930; Lange M., “Le comte Art, de Gobineau”, Estrasburgo, 1954; J. Louvré, “Gobineau sinologue”, Nouvelle Revue Française, Paris, fevereiro, 1934.

5Eis aqui um “quadro das raças” hitleriano [cópia digital da fonte da tradução (N.T)]:
quadro-raças-em-O-delírio-racista-Berneri

aNão nos foi possível traduzir este termo, nem mesmo descobrir a que povo ou etnia se refere, pelo que o deixamos em itálico tal qual está na versão castelhana de D. Armando Panizza, fonte da nossa tradução. Esta nota aplica-se igualmente aos dois seguintes termos em itálico (“penonios” e “yasigas”). [N.T.]

bNão conseguimos descobrir a que poeta russo este nome (?) supostamente se refere, pelo que deixamos em itálico tal qual está na versão castelhana de D. Armando Panizza, fonte da nossa tradução [N.T.]

6Sobre a inexistência da raça hebraica existe uma vastíssima literatura. Limito-me a assinalar, pelas indicações que contém, a tese de A. Puvion, “La pathologie des Juifs est duenon a la race mais aux moeurs”, Paris, 1930.

7Entre os falashas da Abissínia há alguns inteiramente negros e outros quase brancos; o mesmo que nos abissínios. O tipo semita é excecional entre os primeiros como entre os segundos.

cNão confudir com a Galiza. [N.T.]

8Em junho de 1933 o professor F. Dvornik publicava na Prager Presse um notável estudo sobre o império khazar-hebreu.

9“Koralle” (31 de agosto de 1933): como todos os demais povos, o povo judeu representa também uma mescla de raças, mas está composto de raças não-europeias e portanto é mais fácil de distinguir da população no meio da qual vive. “Uma pequena parte do povo judeu pertence principalmente à raça oriental. Mas a grande maioria é uma mescla de raças do Oriente-Próximo, alheias às raças que compõem o nosso povo”.

10Num discurso Frick, então ministro do Interior do Reich, dizia: “O estudo das raças deverá ser cultivado em todos os graus do ensino com o fim de exercitar o golpe de vista das crianças na distinção das raças” (Voelkisher Beobachter, 10 de maio de 1933).

11Reproduzida pela revista Plus Loin, Paris, junho de 1933.

12Os tipos étnicos europeus “dolicocéfalo louro, alpino mediterrâneo” não coincidem de todo com os tipos fundamentais de línguas (eslava, germânica, romana). Fraça tomou dos romanos a fala latina, mas não se pode falar de raça francesa, muito menos para expressar uma raça latina. A unidade linguística não impede à França a variedade étnica, em que prevalece o cunho germânico. O mesmo aspeto apresenta Inglaterra propriamente dita, na qual se fundiram os aborígenes, os germanos ocidentais, os anglos, os saxões escandinavos e os franco-normandos. O inglês é uma língua devida em grande parte aos conquistadores anglos, saxões. Entre as línguas que se falam na Europa, cinco são de origem romana (italiana, francesa, portuguesa, castelhana, romena); cinco de origem germânica (alemã, flamenco-holandesa, inglesa, sueca, dano-norueguesa); cinco de origem eslava (checa, polaca, servo-croata, búlgara, russa). Existem, além disso, três línguas fino-ugrianas (magiar, finlandesa, fínica, estónia e turca). Estas divisões linguísticas não coincidem com as características étnicas.

13No artigo já citado H. Neuville expõe claramente a questão da unidade da espécie humana: “Darwin quis esclarecer sobretudo todo o exame da origem da humanidade e a causa colocou-se posteriormente sobre um terreno verdadeiramente crítico e duma maneira que tornava mais amplo e geral o desenvolvimento do conhecimento das formas humanas. Há uns 50 anos era de tal maneira que os antropólogos admitiam uma origem distinta para cada grupo humano confirindo-lhe um carácter específico próprio. Teria havido vários centros de aparição do homem, sobre cada um dos quais um grupo especial de primatas teria engendrado um grupo especial de seres humanos e pré-humanos. Naturalmente era de difícil realização o acordo entre as diversas conceções assim fundadas. Admitiam-se, por exemplo, cinco centros de formação de espécie humana; 1) um centro ocidental, Atlântida, que teria proporcionado os iberos e talvez os lígures, elementos importantes da população da bacia mediterrânica; 2) um centro africano, donde proviriam os semitas; 3) um centro himalaio, donde proviriam os mongóis; 4) um centro europeu oriente-central, donde proviriam os arianos; 5) um centro escandinavo-asiático setentrional, donde proviriam os finlandeses. De tal maneira que o ‘género’ humano teria fornecido, segundo esta hipótese, cinco espécies, de origens independentes; outras hipóteses apresentavam de maneira diferente a génese de várias ‘espécies’ humanas.

Atualmente estas teorias ‘pologenéticas’ perderam muito terreno. Conservam, sob diversas formas, partidários muito convencidos em antropólogos eminentes. Mas a análise profunda dos detalhes anatómicos tende a mostrar que existe uma unidade sob as diversas consideradas como decisivas pelos poligenistas; o conhecimento cada vez mais extenso das variáveis anatómicas e de relações com o meio permite voltar, sob um aspeto e com um fundo totalmente diferentes, à conceção ‘monogenista’, isto é, à da unidade específica de todos os humanos.”

Contrariamente ao monogenismo bíblico, o monogenismo científico atual admite que um grupo de primatas porventura possuindo uma maleabilidade orgânica especial, porventura também colocado em condições cósmicas iguais, teria sofrido uma evolução capaz de levar a um desses estados intermediários aos macacos e aos homens que se começa a conhecer muito vagamente e de maneira aleatória – é preciso confessá-lo. Toda uma escola de antropólogos especialmente versados na zoologia acredita que esta evolução se deu na verdade a partir dos insectívoros, especialmente dos ‘Tupaias’, espécie de pequenos esquilos insectívoros só vivem no Sul da Ásia: a guerra do macaco poderia chegar a ser assim um insectívoro mais comum, o ‘Musaranho’. Seja como for, as atuais conceções monogenistas admitem que uma vez cumprida a evolução que conduz todo um conjunto a um estado humano ou pré-humano, essa humanidade primitiva ter-se-ia dispersado. A evolução de que se trata ter-se-ia desenvolvido num território provavelmente vasto, ocupando o Norte do grande continente euro-asiático. Divergindo desse centro já muito amplo em vários sentidos, encontrando condições tão diferentes para fixar as ideias como são as de países muito quentes e muito húmidos ou muito quentes e muito secos, muito frios e muito húmidos ou muito frios e muito secos, sofrendo as variações climatológicas que que com o tempo intervêm numa mesma região, como as alternativas de períodos glaciares e períodos quentes que tiveram lugar na antiga Europa, os grupos humanos diferenciaram-se fatalmente. Alguns desapareceram na realidade, enquanto que outros prosperaram e houve certamente para eles alternativas de fortuna e de infortúnio que realizaram muito duras seleções e influíram, por sua vez, sobre os indivíduos e sobre as coletividades. Algumas destas, levadas pelas suas migrações a terrenos providos de limites naturais que chegaram a ser pouco frequentáveis (pensemos nos continentes que viraram ilhas), onde a reprodução se operava forçosamente entre sujeitos dum grupo isolado dos demais e submetidos a condições gerais de certa fixidez, poderia manter-se sobre tais bases num estado próximo a um dos primeiros estados. Esse é provavelmente o caso dos australianos, que permaneceram tão próximos aos homens fósseis pertencentes ao muito antigo grupo europeu chamado Neandertal. Outras coletividades, colocadas noutras condições, deviam diferenciar-se fatalmente cada vez mais. Assim se explicam, segundo os dados atuais mais admissíveis, as diferenças que representam agora os diversos representantes duma humanidade que terá sido privitivamente constituída por um só grupo.

Todos os homens formariam, pois uma só ‘espécie’ zoológica, divisível no que os zoólogos chamariam ‘variedades’ ou ‘subspécies’. Mas como esta espécie humana está – mediante a civilização – a condições especiais que recordam as dos animais domésticos, o termo dos criadores, ‘raça’, já retido por Darwin, é, vimos, inegavelmente preferível.

A este respeito me vejo obrigado a abrir um parêntesis, que creio muito importante, quanto a uma das condições biológicas mais essenciais da formação e da preservação da humanidade. Esta condição é-lhe especial: é a que parece ter realizado muito cedo, para os grupos humanos, a ‘vida social’. O estado biológico do homem deve tê-la feito inevitável desde os começos mais antigos da diferenciação das formas que dividiram a humanidade em raças, a longa gestação, a do desenvolvimento do filho, põe a mulher em tais condições que foi necessário certo grau de vida familiar permanente aos nossos muito distantes antepassados. As condições que resultavam disso podem ser comparadas em grande medida com as dos nossos animais domésticos. Vida social e domesticação têm pontos comuns que foram sintetizados assim: alimentação mais regularmente assegurada, lugar de habitação restringido, proteção mais perfeita, reprodução limitada. O homem, que posteriormente assegurou essas condições artificiais a alguns animais, começou por assegurá-las a si mesmo, salvo a última; libertou-se assim de forma incompleta mas crescente de certas leis naturais: à luta individual pela existência substituía a associação para a luta”.

14O índice cefálico calcula-se, seguindo uma fórmula trivial em osteometria, multiplicando por 100 a mais pequena das dimensões da cabeça (a largura) e dividindo este produto pela maior de ambas as dimensões (o comprimento). Com o mesmo sistema obtem-se o índice nasal.

15As qualidades psíquicas das raças germânicas seriam, segundo Günther, as seguintes:

a) o homem nórdico é “intrépido, nobre, heróico”;
b)
o homem ocidental (mediterrâneo) é “cruel, calculador, astuto”;
c) o homem dinárico é “audaz, mas sem desejo de fazer conquistas”;
d) o homem oriental é “meditativo, estreito, comprador”;
e) o homem báltico é “trapaceiro, vingativo, servil”;
f) o homem fálico é de uma “firmeza pertinaz, é sincero e inspira confiança”;
g) o homem dos Sudetos não está definido psicológicamente.

16Artigo publicado por “Wartburg, Das Voelkische Wochenblatt Norddendeutschlands”, semanário do partido nacional-socialista da Alemanha do Norte.

17Eis aqui a verdade do presidente do Conselho de Slesvig, publicada no Frankfuter Zeitung: “Os inspetores e examidadores comprovaram novamente que no ensino religioso, tal como é praticado no Estado de Slesvig, se ensina sempre a lenda do sacrifício de Isaac. Anticipando-me às modificações que o ministro da Instrução conta fazer dentro em breve ao programa de ensino respeitante ao Antigo Testamento, ordeno desde agora a erradicação do programa escolar da lenda acima mencionada, já que a conceção de Deus que reflete não corresponde ao espírito alemão”.

18A cidade de Spira, no Palatinado, estabeleceu um horário especial para o acesso dos hebreus aos banhos termais. O Concelho Municipal de Tubinger (15 de maio de 1933) proibiu aos hebreus “ou os de raça alheia” a entrada nos banhos comunais. A 22 de agosto de 1933 uma ordenança do presidente da polícia da Prússia proibia aos hebreus o acesso à praia de Wannse.

19Leia-se uma passagem do artigo: “O judeu Ernest Arnstein, proprietário da casa Wllhofer e C.ª, de Zirndorf, possui na rua Adler N.º 31 um departamento feudalmente instalado. Recebe mulheres alemãs, que em seguida têm o atrevimento de passear pelo seu braço pelas ruas da cidade. Uma dessas alemãs desavergonhadas, que tovavia considera uma honra ter por amigo um semita, chama-se Inge Maner e tem domicílio no N.º 33 da Augustinerstrass. Não contente de oferecer o ignóbil espetáculo de uma ariana submetida ao bom desejo dum judeu, tem a ousadia de aparecer em companhia do seu amigo nos estabelecimentos públicos de Nuremberga.”

A mulher, chamada Anna Brehm, de 19 anos, e com domicílio no N.º 73 Kerlstrasse, em Goppingen,tem por amigo o judeu Breyer. É evidente que as efusões desse semita não bastaram para saciar a nossa jovem Anna, pois fez-se necessário ter mais um amigo ainda, igualmente judeu, chamado Guggenheim. Todas as noites se pode ver a nossa pequena desavergonhada a frequentar os cantos sóbrios sob as portas de garagem em companhia de um dos seus judeus. Que preste atenção; se tem a má sorte de ser apanhada uma destas noites com os semitas em questão”.

20O Livro pardo afirma: “Possuímos um documento, uma pequena folha de papel distribuida nos lugares públicos”

21Resulta do texto da lei que a tentativa de estabelecer essas relações sexuais é punível tal como as próprias relações.

22A memória explicativa desta lei concerne aos judeus e às pessoas de cor. A lei atual considera judeus todos aqueles que têm um judeu na sua ascendência até à terceira geração. Ao contrário, existe uma ordem administrativa segundo a qual os japoneses não devem ser tratados como pessoas de cor, mas que são assimilados aos arianos.

23Sobre a questão da “patologia hebraica” existe uma extensa literatura. Limito-me a indicar alguns estudos: Blanchard, “Bulletin de la Société d’anthropologie”, 6 de novembro de 1884; M.G. Lagneau, “Bulletin de l’académie de Médecine”, 8 de setembro de 1891; C. Lombroso, “L’ántiseminismo e le scienze moderne”, Turim-Roma, 1894; “La pathologie des Juifs”, Paris, 1930.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s