Como surge a luta de classes

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Por NENO VASCO | Trecho do livro Concepção Anarquista do Sindicalismo, publicado no número 485 do jornal A Batalha, 3 de agosto de 1920, por iniciativa da redação. Neno então encontrava-se internado em São Romão do Coronado, Trofa, onde viria a falecer no dia 25 do mês seguinte.


Como surge a luta de classes

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As tendências da organização operária para o corporativismo e para a colaboração de classes
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[Nota introdutória de A Batalha]
Do livro A conceção anarquista do sindicalismo, da autoria do nosso distinto colaborador Neno Vasco, livro que, editado pela secção editorial de A Batalha, aparecerá brevemente, arrancamos para este lugar, do capítulo O automatismo sindical, um trecho que ataca um assunto de que este jornal se ocupou há dias, a propósito da atitude do pessoal das Companhias do Gás e da Água, e onde aquele nosso amigo produz considerações muito judiciosas acerca da má orientação que, por vezes, algumas corporações revelam:

A luta de classe não surge automaticamente, desde que se agrupam assalariados para defesa dos seus interesses imediatos, económicos e profissionais. A luta de classe é a luta pelos interesses gerais do proletariado, ou pelos interesses corporativos que não contrariam aqueles; e, para ser revolucionária, deve visar à abolição das classes. E, infelizmente, não é só o parlamentarismo, o pseudo-socialismo parlamentar, que conduz à colaboração de classes e à negação da luta de classe: o corporativismo, sem a ação consciente dos revolucionários, a cada passo aí vai ter.

É que entre os trabalhadores, tomados individualmente, e entre as corporações de ofício ou categorias, há amiudados conflitos e rivalidades de interesse, como, por exemplo, quando uma corporação reclama a construção de couraçados ou de arsenais (caso sucedido em Itália), ou quando outra pede uma taxa aduaneira protetora, nociva para o povo em geral ou para outras categorias de operários.

A cada passo vemos corporações operárias, nas suas lutas e reclamações, ignorarem que o trabalhador é ao mesmo tempo consumidor e porem-se em violento conflito de interesses com o público.

Vemo-las confundirem os legítimos interesses do serviço com os interesses parasitários da empresa, tomarem a peito a defesa dos segundos perante o público, provocarem com este mil atritos e criarem assim uma atmosfera de antipatia e hostilidade, que a elas próprias prejudica nas suas reivindicações e fere a solidariedade entre os trabalhadores.

Em vez de procurarem impedir que o patronato recupere do público — isto é, da massa trabalhadora — a parte do seu lucro que teve de ceder, em vez de incluirem isso na lista das suas reclamações e entre as condições do regresso ao trabalho, ou de pelo menos mostrarem ao público a possibilidade que tem o patronato de ceder às reclamações do seu pessoal assalariado sem novos encargos para o consumidor, vemos amiúde corporações organizadas praticarem o cúmulo de pedir ao ministério, ao parlamento, ao município uma elevação de tarifas, de passagens ou de preços de vendas, para que a empresa possa aumentar-lhes o salário! Não vimos nós até a infâmia de para esse fim se reclamar o aumento do preço da água? — da água que, pelo contrário, deveria ser distribuída gratuitamente a domicílio! Não temos nós visto greves e corporações operárias manejadas pelo patronato para obter, a pretexto duma irrisória melhoria de salário, um forte desenvolvimento de proventos?

E não é das tarefas mais fáceis convencer essas corporações de que, procedendo assim, praticam atos de traição declarada à classe operária, atos de amarelos retintos.

Não é fácil fazer-lhes compreender o que deve ser a ideia, norteadora da ação de classe: que a propriedade do serviço e do seu material pertence legitimamente à comunidade. Que a empresa, o patrão é o intruso, e contra ele e o seu lucro deve reverter a ação conjunta e solidária do produtor e do consumidor. Que a própria corporação operária, devendo ser a primeira competência para a organização interna do seu trabalho e devendo tender a eliminar o acionista, o parasita, o alheio ao serviço, não é senão depositária desse serviço, não tem senão uma delegação de função, dada pela coletividade. Que é com os legitimos interesses desta que se deve procurar harmonizar o interesse legítimo de cada categoria produtora.

Sem a ação e propaganda constantes dos homens de ideias, o egoísmo corporativo tende a enraizar-se e a tomar formas odiosas, altamente atentatórias da solidariedade operária, sem a qual não é possível a emancipação da classe.

Assim vemos organizações operárias encerrarem-se num isolamento corporativo, recusando obstinadamente federar-se com as demais; rejeitarem orgulhosamente, nas suas greves, a solidariedade das outras ou negarem-lhes a sua, quando necessária; proclamarem que se bastam a si mesmas e declararem até que voltariam ao trabalho caso o restante operariado fizesse a greve geral de solidariedade, acusando estupidamente esse movimento de «especulação política»; criarem para si privilégios e regalias dentro das corporações, instituirem zonas privativas, limitarem o número dos aprendizes, oporem-se ao trabalho feminino, fazerem guerra ao operário estrangeiro, ao imigrante.

Vemos organizações operárias misturarem e abafarem a «resistência» com o mutualismo e o cooperativismo e acabarem por temer a ação. Vemo-las procurarem a sua salvação e a justificação da sua preguiça ou impotência na reivindicação das mais anódinas e ridículas reformecas, de invenção patronal ou política, e tirarem da constante inaplicação das leis operárias, como ensinamento, não a necessidade de recorrer à ação direta, mas a urguência de… fazer novas leis e aumentar a burocracia do Estado!

É certo que, sem a ajuda dos factos e o favor das circunstâncias, sem as repetidas e severas lições da experiência, a minoria consciente é absolutamente incapaz, não só de promover a ação das massas, mas até de lhes ensinar as verdades mais singelas e rudimentares; mas não é menos certo que, sem a ação dessa minoria, as massas, embora associadas, não sabem interpretar os factos, nem aproveitar as circunstâncias, lendo, pelo contrário, as lições da experiência no sentido mais grato à sua preguiça e à sua inação.

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