O individualismo stirneriano no movimento anarquista (I)

Por LUIGI FABBRI |

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Primeira de três partes de artigo publicado originalmente na revista «Il Pensiero» (Roma), nos números de outubro, novembro e dezembro de 1903. Traduzido do original italiano. Sairá em breve a tradução das restantes duas partes do artigo.


O individualismo stirneriano no movimento anarquista

I

Uma prova da seriedade e da força duma doutrina é surgirem ao lado dela, ou desprenderem-se do seu tronco, outras doutrinas, mais ou menos perfeitas, mais ou menos duradouras, que com a primeira têm em comum o reconhecimento duma verdade ou dum dado ponto partida do qual uma e outra extraem deduções e conclusões diversas.

Especialmente as doutrinas que se dirigem às multidões e têm um propósito social, político ou religioso, suscitam ao seu redor — e quase sempre contra os próprios que os geraram — os hereges; os quais tanto podem ser os reformadores e aperfeiçoadores da doutrina mãe, como os seus corruptores. Quase sempre acontece que, no primeiro caso, a heresia vence a doutrina e substitui-a, tornando-se ela própria doutrina; enquanto que, no segundo caso, ou o novo ramo atrofia e depressa seca, ou mantém uma vida miserável ao lado do tronco de que deriva, o qual continua a crescer e a viver por conta própria.

Algo de semelhante ocorreu relativamente ao anarquismo, que hoje conta ao seu redor não poucas filiações das suas teorias; desvios e ramificações que a ele se reportam quanto ao que constitui a característica principal e necessária de todas as doutrinas anarquistas: a negação do princípio da autoridade, isto é, de toda a coação violenta do homem sobre o homem. Em função da diferente interpretação que cada teoria faz deste principio negativo, a autoridade é mais ou menos negada, e o método de luta de cada uma varia, como variam as ideias adicionadas à ideia mãe. Mas esta última continua a ser o ponto de partida comum, quer para os argumentos teóricos, quer para a ação prática que os seguidores lhe fazem resultar.

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A anarquia historicamente — e, tal como ela é aceite pela maioria dos anarquistas, também ideologicamente — é uma escola do socialismo.

O socialismo, após o período embrionário da sua formação, que compreende todo o ciclo dos socialistas apriorísticos e utópicos (Babeuf, Fourier, Saint-Simon, Owen), torna-se positivista, encontra o seu caminho através das tentativas Proudhon, assume forma e linguagem científica com Karl Marx, até que no cadinho das revoluções políticas de meados do século XIX e depois da Comuna de Paris, atinge a sua maturidade, e cinde-se nas duas tendências que continha dentro em si desde os primórdios: a autoritária e a libertária.

O socialismo anarquista reporta-se de algum modo a Fourier, como o socialismo autoritário a Saint-Simon. As duas tendências não se manifestaram, porém, enquanto o socialismo não atingiu certo grau de expansão e não havia sofrido a elaboração necessária. A questão económica mantinha-as unidas e impedia que se manifestassem, pela necessidade imperiosa e absorvente de afirmar com unanimidade de intenções o que foi certamente a mais importante conquista social do século XIX: o princípio da socialização da propriedade, vale dizer, a afirmação do direito proletário face à burguesia.

A Associação Internacional dos Trabalhadores fez esta declaração de guerra em 1864; o Manifesto dos Comunistas de Marx e Engels, escrito já em 1848, foi seu intérprete. A Comuna de Paris de 1871 foi a vulgarização heróica — sublime propaganda pelo facto — da ideia socialista.

Depois de 1871, no seio da Internacional, que já havia conquistado para o socialismo o direito de cidadania entre as ciências económicas e sociais, nos congressos memoráveis que foram verdadeiros laboratórios de ideias, o problema da liberdade fez-se sentir mais fortemente, e a cisão ocorreu, já que se tornou incompatível a permanência na mesma carapaça das duas tendências já adultas e opostas. Mikhail Bakunin e Karl Marx, dois colossos, sintetizavam a contenda de ideias e métodos entre o socialismo autoritário e o socialismo libertário ou anarquista.

A partir de então os dois socialismos caminharam separados, cada um pela sua via, ajudando-se por vezes como aliados, mais vezes combatendo-se asperamente, cada um pretendendo para si a posse da verdade e o segredo da revolução social.

Não cabe aqui examinar qual dos dois tinha maior razão.

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Assim, tal como veio ao mundo a primeira vez, a anarquia foi portanto socialista. Mesmo Proudhon que, pode dizer-se, tinha um pé no socialismo utópico e outro no socialismo que hoje costuma chamar-se científico, nunca divorciou o seu conceito anarquista da organização social do conceito socialista da negação da propriedade individual. A propriedade é um roubo! esta verdade em vestes de paradoxo, lançada já durante a tempestade da revolução francesa de Brissot, foi ele, Proudhon, que a proferiu por sua conta e a tornou popular.

Mikhail Bakunin, que não tem as incoerências de Proudhon, e que é o primeiro a apresentar a teoria anarquista como um todo orgânico, foi antes de tudo socialista. A ele se deve — e aos seus seguidores — a vulgarização do socialismo na Europa meridional. Ainda de modo mais categórico e mais radical do que Marx, ele pregou a socialização da propriedade, ao que dava a maior importância. Nos seus opúsculos, livros e artigos, é sobretudo de socialismo que se fala, de propriedade coletiva; e aliás a palavra anarquia raramente aparece neles. Socialista em economia ao ponto de ser de certo modo marxista, ele divergia dos marxistas quanto à forma de organização política da futura sociedade socialista, e entretanto também na forma de organização das forças socialistas em luta, nos métodos.

Por muito tempo na Europa latina, enquanto não surgiu o partido social-democrático, os anarquistas que se davam a conhecer na sua propaganda chamavam-se simplesmente socialistas. Carlo Cafiero, anarquista, foi o primeiro a vulgarizar na Itália O Capital de Marx. Um opúsculo de Errico Malatesta, Entre Camponeses, o melhor opúsculo de propaganda anarquista alguma vez escrito, saiu pela primeira vez com o subtítulo propaganda socialista, e não é senão uma crítica da organização individualista da propriedade — tão socialista que Camillo Prampolini lhe fez uma edição, purgada das frases demasiado anarquistas e revolucionárias, para uso da propaganda social-democrática.

Toda a sociologia anarquista até há pouco tempo estava, de resto, impregnada de marxismo, dos seus erros assim como das suas verdades; e possivelmente não houve marxistas mais coerentes com a doutrina do mestre do que o foram os anarquistas, os quais devem alguns conceitos mais catastrofistas — abandonados hoje pela maioria — precisamente às ideias catastrofistas de Karl Marx.

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A ideia da liberdade individual, da autonomia dos indivíduos, dos grupos, das associações e das comunas na federação internacional dos povos, jamais se divorciou, na doutrina dos anarquistas militantes, do princípio da solidariedade, do apoio mútuo, da cooperação (como de resto dizem as próprias palavras «grupos, associações, federações, etc.»), e conservou sempre o significado eminentemente socialista que lhe atribuía Bakunin, quando em oposição à centralização de poderes desejada por Marx falava em federalismo.

Bakunin foi de facto — com as devidas diferenças —, para o socialismo, o que na Itália foi Carlo Cattaneo para o republicanismo. Assim como os unitaristas não podem negar que era republicano o federalista Cattaneo, também os socialistas autoritários não podem negar (e não o podem tampouco os individualistas) que era socialista o anarquista Bakunin.

O anarquismo de Mikhail Bakunin sofreu uma certa evolução com o tempo. Foi mais bem elaborado e tornou-se cada vez mais racional e científico. Mas não perdeu nunca o seu caráter socialista. Na verdade, por assim dizer, aperfeiçoou-se ao tornar-se ainda mais socialista, passando de coletivista para comunista. Foi nos últimos congressos da Internacional que Piotr Kropotkin, Carlo Cafiero, Élisée Reclus, etc., falaram do comunismo anarquista e que o anarquismo foi aceite com este novo nome. Os próprios social-democratas admitem que o comunismo é uma forma mais evoluída de socialismo do que o coletivismo. Não era Karl Marx comunista?

Eu creio que os anarquistas foram, aliás, um pouco dogmáticos demais na defesa do comunismo, quando deveriam considerar que o importante era assegurar a liberdade ao proletariado de organizar a seu modo a propriedade no rescaldo da revolução, após tê-la arrancado do monopólio capitalista. Eu sou comunista, mas penso que não se deve ser demasiado exclusivista nesta teoria sobre o modo como organizaremos a propriedade, sobre o modo de a socializar. O importante é poder socializá-la (e isto é socialismo) e socializá-la a nosso modo (e este é a anarquia).

Por isso muitos anarquistas hoje, sendo comunistas, preferem chamar-se socialistas-anarquistas.

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Até cerca de 1890, nenhum anarquista havia que concebesse a anarquia diferentemente de uma especial estrutura de organização socialista. «A liberdade de um cidadão começa onde termina a liberdade de outro cidadão», reafirmava Piotr Kropotkin no processo de Lyon de 1882. E o rabelaisiano «Faz o que queres» era entendido sempre no sentido do ego-altruísmo, da liberdade própria completada pela liberdade dos outros, do bem-estar dos outros necessário ao bem-estar próprio, numa palavra, no sentido da solidariedade.

Só depois de 1891 se manifestou no mundo anarquista o individualismo, infiltrando-se diria quase sorrateiramente, mas não conseguindo nunca conquistar senão poucas individualidades isoladas, e não conseguindo de modo algum ser aceite nem pela ciência sociológica, nem pela inteligência já não mais negligenciável das massas.

Max Stirner foi desenterrado das bibliotecas empoeiradas; e este filósofo paradoxal retornou à luz e obteve as honras dos maiores génios, cerca de cinquenta anos depois, por mérito sobretudo de artistas e literatos que nele encontraram interpretada a rebelião contra os velhos dogmas e contra a tirania da sociedade atual, uma sociedade de gansos e serpentes, em que as suas aspirações são frustradas ou encontram obstáculo, e que por isso suscita neles, mais do que o desejo humano de transformar e converter tal sociedade, o desejo individualista e egoísta de descurá-la e desprezá-la do alto das suas fantasias literárias e artísticas.

Quem sabe se nesse desprezo não reside adormecido e inconsciente também um resquício de desejo de dominação e privilégio, uma tendência para substituir a tirania do Estado, do padre e do patrão pela tirania dos «intelectuais»!

A preocupação máxima do eu, que não é acompanhada pelo sentimento da solidariedade, deixa desconfiados os anarquistas socialistas, nós que somos a massa, e que não queremos acima de nós nenhuma tirania.

Justificada ou não esta nossa desconfiança, entretanto constatamos isto: até ontem o individualismo stirneriano era inclusive ignorado entre os anarquistas. Que isto desmente a paternidade de Max Stirner sobre o movimento anarquista contemporâneo — afirmada mas não demonstrada por Georgi Plekhanov, Ettore Zoccoli e outros —, é mais do que evidente.

E agora examinemos qual é hoje a influência de Max Stirner no seio do anarquismo, influência esta póstuma; e assim constatemos ainda melhor o equívoco em que (de boa ou má fé, não importa) caíram aqueles que vêem na anarquia nada mais do que o triunfo do individualismo, o exagero, para dizê-lo com Filippo Turati, do «individualismo burguês».

E vejamos também qual a ligação da teoria stirneriana com aquela que informa o movimento anarquista; porque em muitas partes uma parece combinar com a outra, quando na realidade são extremamente contraditórias; — e vejamos como são contraditórias.

(Continua)

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